Por que os magnatas Joesley e Wesley (JBS) ganharam anistia?

Corruptos confessos. Perdoados
Foto: Reprodução

“Vocês vieram me buscar, né?”, perguntou o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto quando foi levado pelos policiais federais em abril de 2015, pela Operação Lava Jato. Esse mesmo questionamento parece bem distante dos irmãos Batista, magnatas da JBS. Wesley e Joesley participaram das “ações controladas da Polícia Federal” e gravaram conversas em que confessam práticas de corrupção. Apesar disso, eles não respondem criminalmente por nada. São uma exceção.

Na lista de presos da Lava Jato são tantos nomes, que é difícil encontrar uma versão completa. Todos os registros parecem inacabados. De acordo com dados do Ministério Público Federal no Paraná, divulgados em março de 2017 quando a Operação completou três anos, já se somavam 57 acusações criminais contra 260 pessoas, sendo que em 25 já havia sentença por crimes.

Na esfera das acusações, só na “lista de Fachin”, embasada na delação da Odebrech, são 98 políticos citados.

No combo dos condenados, de Marcelo Odebrech (empresário), a Zé Dirceu (PT), Palocci (PT) e Sérgio Cabral (PMDB), até nomes menos badalados como Leon Denis e Maria Dirce, existem condenações de até 19 anos de prisão, como no caso do ex-senador Gim Argello (PTB-DF), por crime de corrupção passiva, lavagem de dinheiro, obstrução à investigação criminosa.

No que é possível ouvir dos áudios de Joesley, ele e o irmão também teriam cometido esses crimes. Mas, ao contrário dos condenados, eles ganharam o direito de desfrutar a vida num belo imóvel de R$ 30 milhões na Quinta Avenida, em Nova York.

Além disso, no histórico da empresa e dos empresários, existe uma sucessão de denúncias. Em 2007, durante o governo de Lula, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Nacional (BNDES) liberou em tempo recorde, R$ 8,1 bilhões para a JBS. De acordo com a Operação Bullish da Polícia Federal, deflagrada na sexta-feira, 12/05, (cinco dias antes do vazamento do áudio para a imprensa), houve irregularidades e influência do governo na transição. Em 2008, a família Batista comprou a Smithfield Beef Inc, mais uma vez com a ajuda do BNDES. Em 2014, durante o mandato de Dilma, o grupo chegou a assumir o posto de maior empresa do Brasil, ficando atrás somente da Petrobrás.

Em 2016, a JBS e o grupo J&F, que controla os negócios da família, começaram a parecer com muita frequência nas ações da Laja Jato e em seus desdobramentos. Em junho, Joesley foi um dos alvos da Operação Sípsis, que teria aportado R$ 940 milhões do FI-FGTS (Fundo de Investimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para a produtora de celulose Eldorado Brasil, que faz parte do grupo J&F. Em setembro, a PF deflagrou a Operação Greenfield. Desta vez o alvo era a fraude em fundos de pensão. As irregularidades teriam ligação com a Eldorado Brasil Celulose.

O ano mudou e as acusações continuaram. Em janeiro de 2017, a PF deu início a Operação Cui Bono? (A quem beneficia?), que levantou suspeitas sobre o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB) e Eduardo Cunha (PMDB), num esquema que fraudava a liberação de recursos da Caixa Econômica Federal, em troca de vantagens ilícitas. Neste caso, R$ 500 milhões teriam ido parar nos cofres do grupo J&F. Em março, ficou famosa a Operação Carne Fraca, em que a PF investigava a venda de certificados sanitários e pagamentos de propinas. Vários frigoríficos foram citados, entre eles os do grupo JBS (Friboi, Seara e Big Frango).

Ainda assim, diferentemente do que aconteceu com Yussef (doleiro), Delúbio Soares (PT, ex-tesoureiro), Eduardo Cunha (PMDB), João Santana (publicitário) e tantos outros, eles não foram presos, nem usam tornozeleiras eletrônicas. O perdão criminal fez parte de um acordo de delação, cuja peça de maior notoriedade, até o momento, é um áudio com um diálogo entre Joesley e o presidente Michel Temer (PMDB). O problema é que existem indícios de que o material teria passado por edição.

O jornal Folha de S. Paulo contratou uma perícia, feita por Ricardo Caires dos Santos, em que foram apontados 50 pontos de corte, com “indícios claros de manipulação”. Até mesmo a Rede Globo, que desde o início trata o caso com prioridade e “exclusividade às fontes”, admitiu edição, com ressalvas, afirmando que em trechos importantes, nada foi alterado.

E assim, os Batista seguem. Com o perdão criminal em troca da delação, e com liberdade aproveitada em endereço de luxo, ao alegarem ameaças de morte. Eles estão bem, com as famílias, nos Estados Unidos e tudo, devidamente autorizado pela justiça brasileira. O acordo que fizeram nem sequer prevê o afastamento deles de funções executivas na holding e nas demais companhias do grupo, como a JBS.

Os Batista pagarão somente uma multa de R$ 225 milhões. Embora a companhia tenha de pagar outros R$ 11,2 bilhões em acordo de leniência proposto pelo Ministério Público Federal (MPF), terá prazo de 10 anos para ressarcir os cofres públicos. Se os depósitos forem mensais, o grupo gastará R$ 93,3 milhões, montante insignificante perto da receita líquida de R$ 170,3 bilhões da JBS, que é uma das diversas empresas do grupo.

Comentários

Ir ao topo da página