Eles têm candidatos, propostas, formam militantes, disputam espaços entre os partidos e não são partidos

O RenovaBR é um dos grupos mais organizados desse movimento.

RenovaBR, MBL, Raps, Brasil 21, Agora! e Livres. Acredito, Frente Favela Brasil, Ocupa Política, Nós e Frente pela Renovação. Espalhados por todo o espectro político-ideológico, uma dezena de movimentos pretende influir de formas variadas no processo eleitoral deste ano. Em um país onde 69% da população diz não confiar em partidos políticos — segundo pesquisa Datafolha do ano passado, as legendas são as instituições mais desprestigiadas do Brasil—, parte da sociedade brasileira tenta se reorganizar fora da estrutura partidária. Leia esta reportagem do jornalista Rodolfo Borges para o jornal El País conheça melhor esses movimentos.
“É um novo ecossistema da política. Estamos tentando entrar em um sistema cujas portas estão fechadas”, diz o empresário Eduardo Mufarej, cofundador do movimento RenovaBR, que formou 134 dos candidatos que disputarão cargos neste ano. A maioria das candidaturas promovidas pelos movimentos mira os legislativos federal e estaduais, mas há também candidatos a governos e à presidência da República.
Os candidatos do RenovaBR não respeitam unidade ideológica e, apesar de militarem fora do sistema partidário, precisaram se filiar para disputar a eleição. Vinte e cinco deles serão candidatos pela Rede, 16 pelo Novo e 13 pelo PPS. Outros aspirantes à vida pública do Renova tentarão se eleger por MDB, PCdoB e PSOL. “Nós escolhemos pessoas com histórico de liderança, de engajamento. Pessoas auto-motivadas, comprometidas e competentes, porque a política requer isso. Mas com perfis e ideologias distintas. A gente tem a aspiração de ser o centro da mesa, de convergir”, explica Mufarej, que encara o RenovaBR como uma rede de apoio para dar suporte às pessoas que se interessaram pela política depois das manifestações de rua iniciadas em 2013.
Entre os selecionados pelo RenovaBR estão o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, detonador do escândalo que levou à queda de Geddel Vieira Lima do Governo Temer, e João Suassuna, neto de Ariano Suassuna que pretende se eleger deputado estadual pelo PSB em Pernambuco. Ex-secretário de Políticas para a Criança e Juventude do Governo pernambucano, João lembra com empolgação do primeiro evento do RenovaBR de que participou. “Dividi o quarto com um rapaz do Paraná, de um contexto completamente diferente”, comenta, elogiando o nível dos professores e a possibilidade de dialogar com pessoas de correntes partidárias e ideológicas diferentes. Para ele, o movimento “não vem para conflitar com a questão partidária, vem para complementar”.
O mesmo pode ser dito sobre a Raps, a Rede de Ação Política pela Sustentabilidade criada em 2012 por Guilherme Leal, um dos controladores da Natura e que foi candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva em 2010. A rede já reúne mais de 500 membros, 111 deles com mandatos eletivos ou nomeações para funções públicas, que estão espalhados por 24 partidos. Foi por meio dos contatos proporcionados pela Raps que algumas iniciativas do vereador Police Neto (PSD), de São Paulo, inspiraram propostas parecidas em Santos, Sorocaba e Campinas, elaboradas por políticos de partidos como PV, Podemos e MDB, e despertaram o interesse de agentes públicos em Manaus e Santa Catarina.
“Esses grupos pregam o que os partidos não faziam: formação. Os partidos têm fundações, mas não são o espaço de formação. Os partidos antigos formam dentro da própria máquina pública”, analisa Police Neto, cujo projeto de prevenção à corrupção foi o mais replicado por meio da Raps. Interação e formação também estão entre os objetivos do Livres, que desistiu de embarcar no PSL depois que o deputado federal Jair Bolsonaro (RJ) levou sua pré-candidatura à presidência para o partido. Agora constituído como associação, o grupo promove a candidatura de 43 de seus membros enquanto aposta em cursos de capacitação para melhorar o nível das candidaturas, todas ligadas à promoção de valores liberais. Entre os cursos oferecidos pelos movimentos, o mais relevante talvez seja o que instrui sobre como fazer uma campanha com pouco dinheiro, já que os partidos devem reservar seus recursos para tentar reeleger velhos quadros políticos.
Dos movimentos surgidos pós-2013, o mais ambicioso neste ano é o Movimento Brasil Livre (MBL), o único a promover uma candidatura presidencial. Depois de eleger um prefeito e sete vereadores em 2016, o movimento mira agora a eleição de 15 deputados federais e promove a candidatura do empresário Flavio Rocha, que se filiou ao PRB para poder concorrer. O movimento Agora! foi quem chegou mais perto da ambição do MBL, mas não conseguiu emplacar a candidatura do apresentador Luciano Huck. Em fevereiro, o Agora!, que foi criado em 2016 e tem promovido debates sobre o Brasil no exterior, firmou uma parceria com a Rede Sustentabilidade. O Frente Brasil Favela, por sua vez, já se reuniu com pré-candidatos como Marina Silva, Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (PSOL).
Financiamento
Seja endossando candidaturas ou contribuindo para a formação de candidatos, esses grupos enfrentam outro desafio comum além da renovação política: o financiamento. A maior parte conta com doações, desde grandes empresários até qualquer pessoa que esteja interessada em contribuir para as causas encampadas por cada grupo. O crowdfunding (projetos de financiamentos) do RenovaBR, por exemplo, pretende arrecadar 100.000 reais até o fim do mês — e já conseguiu mais de 70.000 reais. Já o Livres se estrutura com o auxílio de grandes investidores que só serão revelados quando a associação prestar contas pela primeira vez. O MBL vende camisetas e o Pixuleco inflável, além de pedir doações.
Para se ter uma ideia dos valores que esses grupos têm movimentado, a Raps captou 4,3 milhões de reais no ano passado. O relatório com os valores detalhados foi auditado pela PricewaterhouseCoopers e está disponível no site da rede. A maior doação, de 1,3 milhão de reais, foi feita pelo Instituto Arapyaú — também fundado por Guilherme Leal — e corresponde a 35% de todo o dinheiro recebido pela Raps no ano passado. Também estão entre os maiores doadores os institutos Lehmann e Vivavida, com 500.000 reais cada. A menor doação foi de 6,32 reais. A Raps começou com apenas nove doadores em 2013. O número cresce todos os anos desde então, e chegou a 309 em 2017.

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