Generais planejam o eventual governo Bolsonaro

Enquanto a campanha do presidenciável do PSL, Jair Bolsonaro, que se recupera em hospital de São Paulo de um ataque a faca, tenta apagar incêndio provocado pela defesa da recriação da CPMF pelo economista Paulo Guedes e por declarações polêmicas do candidato a vice, general Hamilton Mourão (PRTB) –o militar foi orientado a reduzir aparições públicas e o “guru econômico” de Bolsonaro cancelou uma série de compromissos–, um grupo de militares de alta patente continua trabalhando para aprofundar o plano de governo e manter a campanha ativa nos estados.
Em posições estratégicas na campanha, ao menos nove generais e um brigadeiro, todos da reserva das Forças Armadas, atuam em duas frentes: uma técnica, que elabora a plataforma de um eventual governo Bolsonaro, e uma política, onde trabalham como articuladores políticos do capitão reformado.
O grupo técnico, coordenado por três generais, um brigadeiro e um civil, é responsável por criar políticas de governo. Nas mãos deles, está a elaboração de diretrizes para as áreas de segurança pública, transportes e infraestrutura, aeroportos, educação, ciência e tecnologia.
Eles se reúnem quase diariamente no Hotel Brasília Imperial, no Distrito Federal, e permanecem em contato via WhatsApp. Juntos, coordenam equipe de cerca de 30 técnicos civis que elaboram diretrizes para um eventual governo.
Na área de infraestrutura, a prioridade é terminar obras não concluídas e resolver problemas nas malhas rodoviária e ferroviária; na educação, o foco é priorizar investimentos no nível básico da rede pública; na ciência e tecnologia, propõem incentivos a pesquisas em áreas estratégicas e, na defesa e segurança, querem integrar as polícias estaduais e federal para a troca de informações de inteligência. Também defendem revisão de benefícios de progressão de pena para condenados de crimes mais graves –a proposta, no entanto, depende de mudança na legislação penal.
Único civil com função de coordenador nesse núcleo, o cientista político Antônio Flávio Testa, doutor pela UNB (Universidade de Brasília) –a instituição diz que atualmente não possui vínculo com o acadêmico–, dedica-se à área de esportes e a questões indígenas. Assuntos relacionados à área econômica são tratados por um grupo à parte do núcleo técnico, sob o comando do economista Paulo Guedes.
O presidenciável disse em agosto que um eventual governo seu terá “um montão de ministro militar (sic)”, selecionados segundo ele, “de acordo com a competência e habilidade deles”. Ao menos dois dos generais que compõem a campanha admitiram ao jornalista Luís Kawaguti do UOL que aceitariam um possível convite –eles são hoje responsáveis pelas propostas nas áreas de segurança e infraestrutura.
No grupo político, outros seis generais da reserva agem nos estados –todos eles candidatos (a maioria disputando vaga na Câmara dos Deputados pelo PSL). A estratégia é promover Bolsonaro e, com ele, suas próprias candidaturas.
Nesse “front”, está o vice de Bolsonaro, Antônio Hamilton Mourão (PRTB), que tem no currículo passagens pelo Alto Comando do Exército e Comando Militar do Sul, e coleciona declarações polêmicas –entre as mais recentes, falou no começo do mês da possibilidade de um “autogolpe” do presidente com apoio das Forças Armadas em caso de hipotética situação de anarquia, e, na última segunda-feira (17), afirmou que famílias pobres “onde não há pai e avô, mas, sim, mãe e avó” são “fábricas de desajustados” que fornecem mão de obra ao tráfico de drogas.
O Exército diz que os militares engajados na campanha não representam a instituição –que se expressa somente pelas falas de seu comandante, o general Eduardo Villas Boas. O Exército se diz apartidário, mas declarações de Villas Boas têm provocado críticas.
Em entrevista publicada no dia 9 pelo jornal “O Estado de S.Paulo”, Villas Boas afirmou que o ataque a Bolsonaro mostra que “nós estamos agora construindo dificuldade para que o novo governo tenha uma estabilidade, para a sua governabilidade e podendo até mesmo ter sua legitimidade questionada”. Na mesma entrevista, ele descartou a hipótese de o Exército provocar uma quebra de ordem institucional.
Núcleo técnico
O núcleo técnico da campanha de Bolsonaro é dirigido por quatro militares da reserva (de alta patente) e um civil. A colaboração não envolve remuneração, segundo os militares.
Eles coordenam mais de 30 pessoas e elaboram planos e estratégias de ação para um eventual governo Bolsonaro –a maioria são técnicos civis, muitos deles servidores públicos de carreira que hoje atuam no governo Michel Temer (MDB).
Da coordenação desse grupo, podem sair ministros de um eventual governo Bolsonaro.
A campanha diz que ainda é cedo para se falar em composição de ministérios, ainda que Paulo Guedes já tenha sido cotado para comandar a área econômica. No entanto, o UOL conversou com três dos quatro militares do grupo técnico e dois deles disseram que aceitariam possíveis convites para assumir ministérios.
O general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, que responde pelas áreas de defesa e segurança pública, diz não ter aspirações políticas, mas fala em colaborar com o país. “Se eu for convidado e aceitar, será só mais uma missão”, disse.
“Qualquer um ficaria honrado [com um convite para ser ministro]. Mas deixo Bolsonaro muito à vontade”, afirmou o general Ferreira, responsável pelas áreas de transporte, infraestrutura e mineração.
Já um brigadeiro da Aeronáutica que participa do grupo –e pediu para não ter o nome revelado– disse que voltará à sua aposentadoria quando os trabalhos forem encerrados.
Segundo Mourão, o núcleo vem trabalhando para que Bolsonaro tenha um planejamento pronto, caso assuma a Presidência da República em 1º de janeiro de 2019. Essas estratégias aprofundam o plano de governo já apresentado.
Cada coordenador cuida de uma área específica, como segurança, transporte e educação. Eles se reúnem quase todos os dias para discutir e receber palestrantes e consultores –inclusive analistas com visões contrárias a Bolsonaro.
“Fizemos muitas reuniões na minha casa até o momento que começou a campanha”, conta o general Ferreira. A partir de março, as reuniões se intensificaram. Antes de Bolsonaro ser esfaqueado, costumava se reunir às quartas-feiras com o grupo técnico. A menos de um mês do pleito, o grupo se reúne no Hotel Brasília Imperial quase diariamente.
Ideias em debate
Na área de segurança, o grupo traça estratégias para combater a lavagem de dinheiro do tráfico de drogas, armas e madeira. Para o grupo, rastrear o dinheiro movimentado nessas atividades é a melhor forma de combater o crime organizado.
Em paralelo, defendem investir em dois programas das Forças Armadas de monitoramento de fronteiras, o Sisfron (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras) do Exército, e o Sisgaaz (Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul), da Marinha, e aumentar os esforços diplomáticos para convencer países vizinhos a reprimir mais o tráfico.
Eles ainda discutem como integrar a troca de informações de inteligência da Polícia Federal com polícias estaduais.
Para a equipe técnica de Bolsonaro, as Forças Armadas terão papel de destaque na segurança pública. Eles estudam formas para que militares possam ensinar as polícias estaduais a melhorar suas estruturas logísticas, para evitar por exemplo que veículos, armas e equipamentos fiquem fora de uso por falta de manutenção.
Também entendem que o Exército, a Marinha e a Aeronáutica devam continuar a ser usados em operações de Garantia da Lei e da Ordem e avaliam a possibilidade das escolas militares intensificarem o preparo dos soldados não só para a defesa contra inimigos externos, mas para ações de segurança pública no país.
Outra ideia em debate é a punição de crimes menos graves com penas alternativas e maior rigor em casos mais graves, impedindo que condenados tenham direito à progressão penitenciária [o direito a benefícios, como sair temporariamente da cadeia, após cumprir uma parte da pena]. Essas propostas necessitariam de mudanças na legislação, e os militares não informaram de que forma elas seriam conduzidas.
Nas áreas de infraestrutura e transportes, querem terminar projetos inacabados, como a ferrovia que pretende ligar o país de norte a sul, e identificar gargalos na rede rodoviária –consertando por exemplo rodovias responsáveis por escoar a produção agropecuária das regiões Centro-Oeste e Norte.
Na educação, entendem que o nível básico de educação deve ser melhorado. Na área de pesquisa, querem investir em parcerias com empresas e incentivar o desenvolvimento de tecnologias que tenham aplicação prática, como por exemplo pesquisas da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) para tonar o setor mais eficiente.
Na saúde, o grupo quer reordenar o sistema de dados para identificar desperdícios e desvios na rede pública.

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