Pelo retrovisor da JBS uma história de poder, escândalos e corrupção

Pelo retrovisor da JBS uma história de poder, escândalos e corrupção
Joesley e Wesley (Foto: Reprodução)

Menos de 48 horas depois das manchetes explosivas da gravação do presidente Michel Temer (PMDB) avalizando empresários a pagar pelo silêncio de Eduardo Cunha (PMDB), as peças começam a tomar seus lugares. Ainda em meio à notoriedade que a Rede Globo deu ao caso, com conteúdo exclusivo, as questões se renovam e começam outras indagações. Entre elas é preciso entender quem são os irmãos Batista, magnatas da JBS, autores das gravações.

Na largada, o que se mostra é uma empresa com biografia cheia de curiosidades, mas com algumas bússolas calibradas pela Polícia Federal. Para enxergar a história da maneira clara, o melhor caminho é o mais simples: o cronológico.

Com a luz acesa em 2007, durante o governo de Lula, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Nacional (BNDES) liberou em tempo recorde, R$ 8,1 bilhões para a JBS. De acordo com a Operação Bullish da Polícia Federal, deflagrada na última sexta-feira, 12, (cinco dias antes do vazamento do áudio para a imprensa), houve irregularidades e influência do governo na transição. Em 2008, a família Batista comprou a Smithfield Beef Inc, mais uma vez com a ajuda do BNDES. Em 2014, durante o mandato de Dilma, o grupo chegou a assumir o posto de maior empresa do Brasil, ficando atrás somente da Petrobrás.

A situação da empresa começou a ficar desconfortável em 2016, logo depois de Michel Temer assumir a presidência.  A JBS faz parte do grupo J&F, que controla os negócios da família Batista. O grupo é alvo de operações da PF. Entretanto, Joesley e Wesley fizeram um acordo, e conseguiram a garantia de que não serão presos, nem sequer usarão tornozeleiras eletrônicas. Eles não irão responder criminalmente. Em troca, participaram das “ações controladas” e delação.

Em junho de 2016, Joesley foi um dos alvos da Operação Sípsis, um dos desdobramentos da Lava Jato, que se deu com base na delação do vice-presidente da Caixa Econômica Federal Fábio Cleto, que por sua vez, é afilhado político de Eduardo Cunha. Cleto recebeu R$ 680 mil em troca de um aporte de R$ 940 milhões do FI-FGTS (Fundo de Investimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para a produtora de celulose Eldorado Brasil, que faz parte do grupo J&F.

Três meses depois, em setembro, a PF deflagra a Operação Greenfield. Desta vez o alvo era a fraude em fundos de pensão. Entre eles o Previ, do Banco do Brasil, Petros, da Petrobrás, Postalis, dos Correios e Funceb, da Caixa Econômica Federal. Ao todo, dez casos de déficits bilionários nos fundos. As irregularidades teriam ligação com a Eldorado Brasil Celulose. Como consequência, Joesley e Wesley tiveram bens bloqueados, mas fecharam acordo com a Força Tarefa da Operação e retomaram o comando da empresa e o controle dos bens. Para isso, se comprometeram a depositar R$ 1,51 milhão em seguro-garantia ou títulos federais.

Já em 2017, no mês de janeiro, a PF deu início a Operação Cui Bono? (A quem beneficia?), que levantou suspeitas sobre o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB) e Eduardo Cunha (PMDB), desta vez, num esquema que fraudava a liberação de recursos da Caixa Econômica Federal, em troca de vantagens ilícitas. Neste caso, R$ 500 milhões teriam ido parar nos cofres do grupo J&F.

Em março, ficou famosa a Operação Carne Fraca. Enquanto as redes sociais recriavam o conto da carne com papel, a PF investigava a venda de certificados sanitários e pagamentos de propinas. Vários frigoríficos foram citados, entre eles os do grupo JBS (Seara e Big Frango). Pouco tempo depois, a JBS divulgou uma nota contando que o Ministro da Agricultura Blairo Maggi havia ido até o frigorífico e atestado o rigor nos processos industriais.

Depois do barulho em torno da Odebrecht, a delação da JBS teve o potencial de revelar o conjunto do quadro político-partidário no Brasil. Foi uma delação com roteiro cinematográfico. Houve notas com numeração sequenciada em cédulas destinadas para suborno, bolsas rastreadas por chip, filmes e gravações em áudio (com originalidade já questionada). O principal impacto das gravações atingiu a população antes mesmo de o conteúdo ser liberado ou homologado. Nela, além de Temer, caiu também Aécio Neves. E o Brasil, que ensaiava uma retomada de otimismo, voltou a estampar as manchetes dos principais jornais internacionais com um escândalo político. Como primeiros sintomas: o dólar subiu e Temer recusou a renúncia.

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