Doença falciforme, da angustia à ação

Vivi por muitos anos na sombra desta  patologia sem que ninguém precisasse saber os motivos das minhas limitações, a não ser meus médicos, minha família e os amigos mais íntimos.

Em 18 de maio de 2011 experimentei um desses ritos de passagem na vida, que nos torna mais forte, mais madura e consciente de nossas limitações e também de nossas possibilidades. Vitimado pela doença, meu irmão faleceu aos 35 anos, depois de ter passado cinco meses no hospital,  lutando com as consequências da Doença Falciforme (conhecida também como anemia falciforme). O choque pela morte de alguém tão próximo e querido, padecendo sob a mesma patologia, mexeu com minha cabeça, ao ponto de eu não conseguir pensar em outra coisa. Quando seria minha vez? Teria forças para resistir? De que maneira continuar a incessante lutando pela vida? Será que iria ver meu filho crescer?

Esses questionamentos passaram a me preocupar e a preencher minhas horas de reflexão. Senti a necessidade de dialogar com todos sobre a doença. Daí, criei uma canal no youtube e uma página no Facebook (Energia Falciforme), para transformar em vontade de viver o que poderia ser somente pessimismo, auto-compaixão e conformismo. Todos podem visitá-la e interagir com página. Afinal, é um espaço aberto para dialogar sobre a Anemia Falciforme e suas consequências. Também ingressei na ABADFAL (Associação Bahia de Pessoas com Doença Falciforme), como uma forma de unir forças.

Falar sobre minha patologia, entrar na ABADFAL e conhecer outras pessoas que sentem as mesmas coisas que eu, foi um divisor de águas na minha vida. Aceitar que a doença  existe foi e é de total relevância, mas não posso deixar que isso se torne a penitência da minha vida, como também não posso ignorar a sua existência.

Em se tratando de doença falciforme, cada um vai saber o seu limite, até onde se pode ir para tentar evitar uma crise de dor e/ou infecções.
Tem limitações que não tenho como saber, mas enfrento, atiro no escuro, pois não quero deixar de aproveitar a vida.
Muitas vezes a crise vem sem ter porquê e nem pra quê (aí é que dar raiva, uma revolta latente, que temos que superar a cada crise. Estava me cuidando direitinho, por que estou com essa dor?
Por muito tempo questionei Deus por isso. Mas, reuni fé e força para me aceitar do que jeito que sou. Afinal,  Deus  deve ter seus motivos, a presença Dele é tão viva no meu coração que não me permito mais tal questionamento. Se é pra eu passar por certas dores, é porquê Ele quer que eu seja forte. E é assim que vai ser, serei forte!
Aprendi isso na infância e carrego essa força comigo sempre.
Quem sou eu para questionar a dádiva de viver?? Eu quero é vida!!! Se para isso for preciso algumas vezes parar tudo e entrar num contexto  de dor física e emocional e depois voltar…Eu vou e volto!
E cada vez, volto emocionalmente mais forte, achando a vida cada dia mais linda, e com uma enorme vontade de fazer com que todas as pessoas que tenham DF e que seus parentes/amigos também sintam essa força.
Uma boa autoestima, a força de vontade e a fé, são ferramentas que andam comigo.
Essas três palavras me ajudaram a concluir o ensino médio e a faculdade, confesso que não foi nada fácil, mas foram etapas vencidas.
Essas três palavras fizeram de mim uma adolescente quase como qualquer outra, freqüentei festas.. festas…muitas festas, mas sem colocar uma gota de álcool na boca (mesmo os médicos dizendo que um pouquinho socialmente, não teria problema). Namorei… paquerei, curti a vida como uma jovem comum, apesar  das internações e crises de dor crises que a anemia falciforme me impunha.

Com o tempo os médicos e sua equipe acabam se tornando amigos de verdade, pela frequência em clínicas/hospitais/emergências/UPAS.

Sentir dor não é fácil, ser arrancado de sua rotina e de momentos especiais para passar alguns dias sofrendo em hospital é muito difícil, mas é preciso continuar e tentar tirar alguma coisa boa dessa dor e é por isso que digo que a DF, extraiu de mim sentimentos como; amor,compaixão,fé e perseverança.

A vida me fez nascer com doença falciforme, mas em contrapartida ela me deu uma mãe heroína e me deu uma família que tenho orgulho e amigos verdadeiros.

A DF me fez repeti de ano uma vez para que eu conhecesse as melhores amigas do universo, selecionou os melhores amigos e selecionou o amor verdadeiro.
Tento sempre ver o melhor que a vida me oferece, por isso que digo que não tenho hemácias em forma de foice correndo nas minhas veias, e sim meia Lua. Será que é por isso que eu sou tão apaixonada pela Lua?!!
Não é por acaso que o maior presente da minha vida, meu filho, se chama Luan.

Sim, tenho Doença Falciforme, que procuro transformar em Energia, para prosseguir na incessante luta pela sobrevivência e pela vida normal. Temos que tentar transformar a nossa anemia em energia, para que possamos energizar e embelezar nossa vida.

* Luciana Serafim é contadora e portadora de anemia falciforme

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BOLSONARO 2018

Pré candidato a presidente da república representa para alguns o “novo”, outros o chamam de Trump brasileiro, ex-militar, defensor da moral e dos bons costumes, faz parte da bancada da arma e da bala, nacionalista, misógino e sua novidade é a recente filiação ao Partido Liberal. Liberdade questionada, se tratando de Bolsonaro, sua grande missão é equilibrar seu discurso convencendo o setor empresarial e social que o militar não é um radical ou um falastrão, temem as surpresas caso Bolsonaro seja eleito, entretanto, conquista com facilidade o público das redes sociais, mas enfrenta resistências com os Progressistas, Defensores dos Direitos Humanos e sua futura equipe econômica é objeto de desconfiança do mercado financeiro.

Sua zona de conforto é falar sobre segurança pública, combate a corrupção e temas que agradam os  conservadores, o discurso utópico do uso de arma de fogo é também um tema que o aproxima do seu eleitorado.  Bolsonaro entende que a violência é assunto que faz parte do cotidiano da sociedade e propõe soluções simples para problemas complexos.

Ainda não é possível analisar a capacidade de convencimento, argumentação e crescimento nas pesquisas de Jair Bolsonaro, contudo é fato que a sua candidatura é irreversível e seus eleitores são muitos nas ruas, nos grupos de WhatsApp e Facebook. Bolsonaro segundo a pesquisa Datafolha divulgada no último domingo dia 15/04/2018 aponta o deputado na vice-liderança das intenções de voto.É possível Bolsonaro alcançar metade dos eleitores brasileiros e mais um? Para assim ser o vitorioso?!?A indignação social é grande, torna o militar um candidato com força, voz e seguidores, para debater pelo segundo turno.  Jair Bolsonaro é um sucesso de marketing pois mesmo em pré campanha, tendo exercido apenas funções no legislativo, sem registro de projetos de sua autoria aprovados e desconhecido por parcela da sociedade, representa  possibilidade de estar presente no segundo turno.O militar é objeto de amor e ódio, há aqueles que o defende com ânimo e também há o que o ignora. Ideias prontas, como bandido bom é bandido morto e o fim dos Direitos Humanos.Bolsonaro aparenta estar fora do mecanismo, establishment, causa frio na barriga dos que torcem pelo FLA FLU, VERMELHOS E AZUL, porque Bolsonaro é uma terceira via ,que o  discurso comove e identifica muita gente.

É real também que suas ideias conservadoras, podem ameaçar a liberdade dos costumes, oferecer riscos às minorias e dialogar com discurso pronto para família “real” brasileira, contudo este fato por si só não é capaz de derrubar a popularidade do militar.Jair Bolsonaro falem o que quiser, mas seu nome terá destaque e com chances reais de ocupar uma vaga no segundo turno, vaga concorrida também por Alckmin e Marina, tema posterior.

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Após Ordem de Prisão expedida pelo juiz Sérgio Moro, Lula se entrega

A prisão de Lula era fato preanunciado, já existia expectativa social de quando isso iria de fato acontecer, aconteceu e Lula está preso.

Sua prisão desperta diversos questionamentos, tais como:

  • O mérito da sentença de Moro
  • A quem interessa Lula preso
  • Qual impacto social da prisão de Lula
  • O que ainda pode acontecer

No que diz respeito ao mérito da sentença de Moro, é necessário analisar com imparcialidade a existência de circunstâncias espúrias entre empreiteiras e o poder público, que cooperam entre si, com a máxima maquiavélica de que os fins justificam os meios, frase escrita no Livro O Príncipe, o qual reflete o comportamento dos líderes do Estado que objetivam  manter a governança.

No caso concreto de Lula e o tríplex é fato o interesse do ex presidente pelo o apartamento, principalmente oferecido nas condições do seu antigo companheiro Leo Pinheiro, dono da empreiteira OAS, interesse pessoal e contratos públicos são objetivos divergentes daqueles que  interessam por gerir o orçamento público, mas também é fato que apenas despertar interesse de obter o apartamento, não é crime, ou seja além das circunstâncias e das expectativas, é necessário provas que materializam qual crime ocorreu, quando ele ocorreu, onde e em quais condições, sem essas respostas objetivas, faltam requisitos  de prova, cai na subjetividade sua condenação.

A prisão de Lula é interesse de diversos grupos sociais, principalmente os que representam o capital financeiro, pois é entendimento de ambos os lados que as operações financeiras, lucros e dividendos serão taxadas pelo estado, ou seja, aqueles que ganham dinheiro apenas pela renda, ações, dólares, vão precisar produzir, investir o dinheiro e contratar funcionários pois a lucratividade dos rentistas e banqueiros já não serão as mesmas, abrindo espaço para o crescimento do capital produtivo.

Quando apontam a mídia também como interessado pela prisão de Lula, o fato é que os interessados são os contratantes dessas mídias, empresários, representantes do capital financeiro, banqueiros ou mesmo os concessionários de rádio e televisão que temem uma regulação financeira desse sistema altamente lucrativo.

O impacto social da prisão de Lula é uma caixa de pandora, pois o encarceramento do ex presidente tem o poder de despertar o ânimo e o coração dos brasileiros, também do exterior, seja para acolher o Lula ou crucificar este. Os próximos dias serão importante para o campo da esquerda e do Partido dos Trabalhadores, terão a dura missão de partir para o enfrentamento, mostrar a força, a capacidade de argumentação e resistência, será nas ruas, no diálogo com a sociedade que é possível informar, ouvir e manifestar.

O fato é, a prisão de LULA muda o jogo eleitoral, o Partido dos Trabalhadores vai precisar abrir canais de diálogos, talvez até abdicar de uma candidatura própria, assunto este que enfrenta muita resistência em alas do Partido. Apoiar um candidato de outro partido, estando o PT com Lula em primeiro lugar nas pesquisas não é algo fácil de abdicar, mas é consenso que Lula terá dificuldade em registrar sua candidatura para concorrer a presidente.

Diante do impasse da prisão de Lula e da dificuldade do registro de sua candidatura, abre um vazio político, muitos ficam órfão do seu maior líder político e com isso surge espaço para outras candidaturas e é sobre esse espaço que iremos analisar adiante.

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Lula

Ontem 04 de abril de 2018 foi um dia esperado por muitos, já que o ex presidente Lula, algoz ou ídolo estava no banco dos réus, a espera de habeas corpus, instrumento constitucional que tem como objetivo garantir o direito de liberdade, ir e vir de todo cidadão brasileiro.

Quais questionamentos, dúvidas e obscuridades estavam em jogo no julgamento de Luís Inácio?

O primeiro questionamento a ser respondido é o porquê do julgamento deste habeas corpus,

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

LVII – ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória;

A Constituição Federal em seu artigo 5º em interpretação literal escreve que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória, ou seja, enquanto existir recurso disponível para interpor em favor da liberdade e absolvição do réu este não será culpado.

Quando a opinião pública ou a opinião publicada de acordo com seus interesses pessoais achaca o Supremo Tribunal Federal com críticas incisivas e chantagens claras, coloca em cheque o grau de independência do STF. O Supremo Tribunal Federal que negou o habeas corpus a Lula ontem por 6×5 é o mesmo STF que devolveu mandato ao senador Aécio Neves também por ¨6×5 com o voto decisivo da Ministra Carmen Lúcia o que ocorreu em ambos episódios.

O que é preciso esclarecer: É  que em uma democracia consolidada, a mais alta corte do país, não pode ser vítima de qualquer chantagem, pouco importando de onde elas surgem, seja do executivo, legislativo ou a própria imprensa. A independência e harmonia dos poderes é um preceito essencial para fortalecer a democracia. Caminhos que não passam pelo voto popular, são autoritários e ferem as garantias individuais.

Lula é condenado em segunda instância e ainda não foi preso, porque faltam elementos essenciais para que se decrete prisão cautelar, ou seja o ex-presidente não oferece risco as investigações, nem mesmo a sociedade, mas aí entra a obscuridade do julgamento de lula, a alguém este nordestino oferece riscos, quem?

É claro que existe uma parcela ainda não muito clara, próximas ao capital financeiro, que por motivos ainda obscuros, não aceitam que Lula participe do processo eleitoral, sim as eleições de outubro é foco desse Habeas Corpus. Caso Luís Inácio continue sua campanha política e fique fora das grades o seu desempenho eleitoral no que dizem as últimas pesquisas, Ibope e Data Folha, mostram claramente LULA em primeiro lugar.

Parece até uma teoria da conspiração, mas é fato que essa condenação de Lula abriu diversas divergências, judicias e sociais, mexendo com o ânimo da população, uns os querem atrás das grades, a outros Lula será presidente e a também há aqueles que só defendem a participação do ex presidente nas eleições de outubro.

O Fato é que o Habeas Corpus ontem negado a Lula, muda o cenário político e causa a necessidade de mudança de estratégia tanto para o Partido dos Trabalhadores, quanto para a esquerda e a direita do País que vão precisar identificar candidatos e unificar discursos para que possam receber os votos dos eleitores de Lula caso este seja impedido de participar do processo eleitoral, com base na Lei Ficha Limpa, que impede condenados em segunda instância a registrarem suas candidaturas.

Mas quem pensa que Lula é carta fora do baralho após ter seu pedido de liberdade negado, está realmente enganado, pois a força popular e capacidade do ex presidente em conversar com grande parcela da população e a possibilidade real de transferência de votos ao candidato que contar com seu apoio, dará a Lula uma responsabilidade significativa. Já que independe onde estiver, em campanha ou atrás das grades sua voz ecoará próximo ao novo Presidente Da República ….

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Tempo

Meu nome é Marcelo Caetano e um dia me disseram para usar meus poderes para o bem. O autor dessa pérola foi um dos meus grandes professores de redação publicitária, mais tarde personagem do meu primeiro livro. Acho que nunca nem falei pra ele, mas aquela brincadeira fez um efeito razoável. Nos últimos quinze anos, a minha carreira de publicitário misturou-se a de locutor, roteirista, escritor e o resultado deu muito certo. Verdade… Uma escorregada e outra acontece nas melhores famílias, mas no geral sigo usando meus poderes para o bem. A ideia desse projeto segue nesse rumo. Só que desta vez, pego a poesia como transporte e carrego na bagagem toda vivência de uma criação dividida entre recôncavo e sertão da Bahia. A missão é clara – em meio a tanta informação pesada que recebemos todos os dias – compartilhar um pedacinho de tranquilidade não faz mal pra ninguém.

Confira abaixo o meu mais novo vídeo, , espero que gostem. Boa semana e vamo que vamo!

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UNIDADE EM PRETO (26/03/2018)

A Segunda-feira começou com todos os professores de preto. Mesmo os que não estavam de preto nas roupas, estavam de preto nos olhos, no coração. Alguns tiraram velhas roupas do armário para tentar externar sua indignação usando a cor do enlutados. A cor do luto, também é a cor do respeito, que podia ser vista em roupas que comumente são evitadas nesses dias tão quentes, de tanto calor que temos vivido… Mas quentes também são os nossos sentimentos, os nossos clamores nesse dia em especial. Dia em que lembramos a colega agredida. Dia em que lembramos a agressão que temos vivido diariamente e que tem partido de muitas direções para a nossa direção. Uma aluna agrediu uma professora a socos e pontapés dentro de uma sala de aula. Uma aluna agrediu a todos nós docentes. Uma aluna foi porta-voz de várias entidades que nos agridem diariamente. Uma nação toda foi agredida… Essa professora, essa escola, essa família, essa aluna foram agredidas. A punição veio antes e veio hoje e, infelizmente, tudo leva a crer, que virá amanhã… Uma punição para todos nós. O que aprendemos diante de tanta punição? A nos acostumar com ela? Não… Não é o que vejo. O que vejo na minha escola, pelas ruas e nas redes sociais é que estamos de preto. Estamos mostrando que estamos de luto, que algo nos marcou tão profundamente que nos tirou um pedaço… Nos tirou a paz, a felicidade em sair cedo para trabalhar… Imagino como a colega, agredida nesse caso emblemático, acordou de manhã para mais um dia de aula. Que gosto estava em sua boca? Que sentimentos trazia dentro de si? Era preta a sua roupa? Era preta a sua angústia? Talvez sim… Mas havia um planejamento a executar… Mais uma aula a ser dada… Uma turma de alunos a esperava… A aluna que a agrediu lá estava? Se sim ou se não fisicamente, mas em memória e dor sim… Tenho certeza que sim, pois ela estava também em minha sala, em minha escola, nas escolas todas desse município… Ela está atrás da mesa que assina leis que não nos representam; Ela está em algumas famílias que não mais compreendem nosso papel, tampouco seus próprios papéis; Está também numa parcela da sociedade que nos aponta o dedo como únicos responsáveis pela educação moral dos cidadãos; Ela está em muitos lugares, em muitos rostos, em múltiplos papéis… Ela nos assombra. Ela, não é apenas a M.M. de 13 anos que estava sentada no braço de uma carteira escolar. Ela é muita gente e gente forte. Aliás, toda gente é forte e é por isso que, nós como professores, nós como também parcela da sociedade professores ou não, nós como gente somos fortes também! É por isso que vestimos preto, essa cor que demonstra força! Mais forte que todas as outras cores… Essa cor nobre e nobre também são os nossos motivos para dela nos valermos no nosso manifesto pacífico e doloroso. Somos todos pretos hoje, embora sejamos coloridos… Muitas cores, muitas diferenças entre nós, mas hoje lembramos o que temos em comum: Nossa força, nosso poder de transformação, nossa seriedade e compromisso com o nosso papel de mediadores do conhecimento. Somos uma só cor, uma só voz, um só grito… Que essa unidade nos leve além! Que nos fortaleça! Que dê visibilidade a nossa causa, que deve ser a causa das famílias, dos alunos, da sociedade, dos governantes… Que a unidade seja um imã e que sejam atraídos aqueles que desejam que o direito de todos a uma educação de qualidade seja garantido no papel e na prática, não só pelos professores, mas também pelo estado e pelas famílias. “Unidos, venceremos. Divididos, cairemos.” Alguém assim disse e eu faço dessas minhas palavras.

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As perguntas pedem espaço

Os assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes no Rio de Janeiro na última semana, surpreenderam e geraram grande comoção não apenas nos familiares, amigos e nos mais de 46 mil eleitores a quem Marielle representava na Câmara de Vereadores do Rio. Provocaram indignação e pesar também em milhares de pessoas que se identificam com as lutas da vereadora e não se conformam com a violência estrutural que dizima milhões de pessoas no Brasil, sobretudo entre as populações mais pobres e marginalizadas da sociedade.

Recebendo apoio de lideranças políticas e religiosas, organizações de classe, artistas, intelectuais, representantes de distintos movimentos sociais e de organizações internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) o caso alcançou grande repercussão em todo o Brasil e em diferentes países pelo mundo. Em diversos lugares foram organizados protestos que expressaram emoções, denúncia e, sobretudo a força da união daqueles/as que lutam por um justo e digno viver para todos/as.

Se de um lado, acompanhamos tantas expressões de solidariedade e compaixão contemplando a face bela e terna da humanidade, de outro presenciamos um verdadeiro show de horrores em relação a Marielle, especificamente.  As tentativas de assassinar também a sua honra utilizando-se das fake news, dos comentários maldosos, do discurso de ódio e intolerância propagados pelas redes sociais, evidenciaram a face violenta, espinhosa e torpe de seres humanos que nos fazem acreditar que a crise civilizatória que temos vivido é mais aguda do que imaginamos.

Marielle carregava em si todos os “estigmas” que despertam a intolerância, o desrespeito e o ódio em muitos: era uma ativista dos direitos humanos, mulher negra, lésbica e favelada. Aqueles/as que ainda não conseguiram reconhecer as gritantes desigualdades econômicas, de raça, de gênero e outras tantas, como causas da violência tendem à culpabilização das vítimas e perante um caso emblemático como este, vociferam tentando deslegitimar as lutas por igualdade de direitos.

Era contra todas essas desigualdades que a “Cria da Maré” (assim ela se definia) protestava! Era a favor dos “deserdados da terra” e pela igualdade de direitos que ela bravamente lutava. Sofreu na própria pele tudo que denunciava, contrariou todos condicionamentos impostos pela sua condição social, racial e de gênero, mas não viveu só para si. Enriqueceu o seu viver fazendo da sua vida uma entrega solidária, se colocando como porta-voz de uma maioria curiosamente chamada de minorias.

O que a vida e o contexto em que se dá a morte de Marielle Franco nos leva a refletir? Qual a sua simbologia? Qual o legado da sua memória para as mulheres, para os negros, para os favelados, para as vítimas da violência e para os ativistas dos direitos humanos?

Não tenho a pretensão de uma análise sobre o caso (muitos já fizeram isso brilhantemente) e nem de apresentar respostas a questões tão complexas (isso também nem me seria possível). O que faço é um convite aflito para que lancemos mais perguntas… Como sabiamente diz o escritor português José Saramago “tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas?”. Não acredito que possamos encontrar respostas para problemas tão difíceis sem nos indagarmos profundamente. Penso que o tempo em que investirmos elaborando boas perguntas será salutar em nos proporcionar o encontro com as respostas que esperamos do mundo.

Reforçando a pedagogia da pergunta, Jostein Gaarder também ensina sobre o valor da interrogação. Segundo o autor “A resposta é sempre um trecho do caminho que está atrás de você. Só a pergunta pode apontar o caminho para frente”. Portanto para colocarmos luz nesse caminho turvo é importante saber: quem? Como foi tramada e o por quê da morte de Marielle? Mas é também fundamental formularmos perguntas que nos leve até as profundidades do solo que produziu o seu extermínio e que tem produzido o de tantos milhões, vítimas da barbárie que tem assolado não apenas o Rio de Janeiro, mas centenas de cidades brasileiras, inclusive a nossa.

É necessário nos indagarmos também sobre as raízes de tanto ódio e intolerância que tem marcado a convivência humana. Por que humanos contra direitos de seus próprios semelhantes? Por onde andarão a racionalidade e a ética daqueles/as que embora não disparem o gatilho das armas, disparam o discurso da intolerância às diferenças, da violência simbólica e da mentira que trucida a reputação das pessoas que não comungam dos mesmos princípios e valores que eles/as.

Onde andará a habilidade de interpretação e a coerência daqueles/as que se apresentam como cristãos, mas acreditam na superação da violência com a produção de mais violência, legitimam o derramamento de sangue e a propagação da insana máxima “bandido bom é bandido morto?” propondo com ironia o silenciamento dos ativistas pelos direitos humanos?

O que pensar sobre a naturalização das desigualdades sociais que se revelam numa absurda concentração de renda nas mãos de um pequeno grupo? Quem rumos tomar perante um Estado com uma estrutura corrompida e rendido aos interesses do capital cumprindo o papel imoral de distribuir migalhas aos mais pobres e excluídos do sistema?

Imersos neste cenário que tentam nos limitar, ameaçam as nossas esperanças nos roubando também a paz de espírito, resta a quem não milita nos campos da violência, da intolerância e do desrespeito dois caminhos:  o da omissão ou o caminho de um renovado contrato com a ética, com o respeito à vida, com a gentileza, com a justiça e a igualdade social. Nesse último, a presença e o testemunho de Marielle certamente nos acompanharão e nos inspirarão.

Quitéria Costa é pedagoga, mestra em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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Quando a gente ganha filho, ganha também um amigo

Meu nome é Marcelo Caetano e um dia me disseram para usar meus poderes para o bem. O autor dessa pérola foi um dos meus grandes professores de redação publicitária, mais tarde personagem do meu primeiro livro. Acho que nunca nem falei pra ele, mas aquela brincadeira fez um efeito razoável. Nos últimos quinze anos, a minha carreira de publicitário misturou-se a de locutor, roteirista, escritor e o resultado deu muito certo. Verdade… Uma escorregada e outra acontece nas melhores famílias, mas no geral sigo usando meus poderes para o bem. A ideia desse projeto segue nesse rumo. Só que desta vez, pego a poesia como transporte e carrego na bagagem toda vivência de uma criação dividida entre recôncavo e sertão da Bahia. A missão é clara – em meio a tanta informação pesada que recebemos todos os dias – compartilhar um pedacinho de tranquilidade não faz mal pra ninguém.

Confira abaixo o meu mais novo vídeo, , espero que gostem. Boa semana e vamo que vamo!

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Poesia, compartilhe sem moderação

Meu nome é Marcelo Caetano e um dia me disseram para usar meus poderes para o bem. O autor dessa pérola foi um dos meus grandes professores de redação publicitária, mais tarde personagem do meu primeiro livro. Acho que nunca nem falei pra ele, mas aquela brincadeira fez um efeito razoável. Nos últimos quinze anos, a minha carreira de publicitário misturou-se a de locutor, roteirista, escritor e o resultado deu muito certo. Verdade… Uma escorregada e outra acontece nas melhores famílias, mas no geral sigo usando meus poderes para o bem. A ideia desse projeto segue nesse rumo. Só que desta vez, pego a poesia como transporte e carrego na bagagem toda vivência de uma criação dividida entre recôncavo e sertão da Bahia. A missão é clara – em meio a tanta informação pesada que recebemos todos os dias – compartilhar um pedacinho de tranquilidade não faz mal pra ninguém. Nesse primeiro vídeo falo das lembranças presentes em cada um de nós, espero que gostem. Boa semana e vamo que vamo!

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Viola de cego

“Ele tirou a viola dum saco de chita e cuja viola estava toda enfeitada de fita ouvi as moças dizendo: Grande viola bonita!” Quando li esses dizeres num livreto de cordel, dos vários que meu primo Péricles deixou comigo certa vez, me lembrei de um tocador cego que me abordou num ônibus que ia de Eunápolis à Porto Seguro, há muito tempo atrás. Os versos são do cordelista Firmino Teixeira do Amaral e contam “A peleja do cego Aderaldo com Zé Pretinho”. A viola bonita citada no cordel é a do Zé Pretinho, mas me lembrou a do cego que esteve comigo no ônibus. Infelizmente não houve tempo dele falar seu nome, apenas entrou no transporte, tirou sua bela viola de dentro do saco, tocou uns versos e pediu cachê. Tudo de forma muito rápida, pois foi numa parada de embarque e desembarque de passageiros desse ônibus que tinha pressa em seguir. Reparei muito na sua viola e no saco de estopa com alguns bordados em ponto de cruz… A viola tinha tirinhas coloridas do Senhor do Bonfim amarradas em sua cabeça e imagens de santos em relevo coladas no tampo. O instrumento musical, aparentemente velho e viajado, estava todo adornado e festivo! Em mim ficaram duas impressões: Que os adornos facilitavam a localização do seu dono que tinha deficiência visual e ainda alegrava os olhos dos ouvintes com suas cores e alegorias, além, é claro, do som que produzia. Ainda por cima, esses enfeites traziam à tona as concepções religiosas desse homem, a sua fé… Me produziu grande encantamento. 

Amo enfeites! Amo adornos, bordados, cores, aplicações! Amo símbolos, significados… E gosto de imprimir esse meu gostar nas roupas que visto, no jeito como me enfeito. Adoro trocar ideias de vestimentas com minhas amigas… Sabe aquele dizer que “mulher se arruma para as amigas”? Me representa! Adoro tricotar com as amigas sobre os adereços e trajes que gosto. Futilidade? Não! Entusiasmo e alegria em me enfeitar para a vida! Tenho uma amiga com a qual compartilhamos muitos gostos em comum… Entre eles a arte de me enfeitar. Sim, pra mim é uma arte. Gostamos de quantidade de adereços e gostamos de dar recados através deles. Bijus coloridas, roupas estampadas… Tudo junto e de uma só vez. Retalhos de tecidos, reaproveitamento de peças, bijus com elementos naturais… Artesanato é vida! Ela é artesã eu apreciadora de seus fazeres. A gente gosta de montar looks cheios dessa alegria e cheio de representatividade e eu sugeri que os batizássemos de looks “Viola de cego”. Contei mais ou menos essa história pra ela, que prontamente concordou com essa denominação do nosso estilo pessoal, da nossa “Arte Naif”, nosso jeito auto-didata de fazer moda, uma moda feita por nós e para nós. 

Recentemente me descobri mãe de uma menina… Menina que ainda não chegou, mas daqui da barriga já coleciona faixas floridas para os cabelos, brinco de bolinha, turbantes coloridos e colar de âmbar… Consumismo? Não. Vontade de enfeitar essa espera deliciosa! Mais do que enfeitar, representar através do que visto, a mim e a ela, coisas que aprecio… Artes feitas à mão; Retalhos cortados e costurados pela avó; Flores de tecido feitas por uma tia avó; Crochês por outra; Casacos tricotados pela Bisa… Cores das mais diversas, camisetas com belas frases… A força, a doçura, a feminilidade… Coisas que muito admiro. Claro que quando começar a dizer o que pensa, ela pode não gostar das mesmas roupas e adornos que eu… Aí vou ouvi-la com atenção e contemplar o nascimento do seu próprio jeito de dar o recado… Não vou me frustrar por isso (pelo menos, espero que não rs)… Vou admirá-la, assim como admiro várias outras mulheres que têm outra postura sobre seus jeitos de se arrumar. Minha mãe, por exemplo, mulher forte e frágil num equilíbrio constante entre essas duas características e numa constância linda de ser e estar entre nós e nela mesma, ama se vestir com as roupas que ela mesma faz e quase todas são do mesmíssimo modelo. Mudam apenas as estampas, embora todas se pareçam… Seus batons e esmaltes são sempre nos mesmos tons… Seu estilo é muito seu e eu acho o máximo! 

Se enfeitar é mais do que mera casca fútil… Se enfeitar é dar recados, é contar sobre escolhas e preferências. Quero ilustrar essa conversa com um quadro lindíssimo de uma artista que me fascina: Frida Kahlo. Quem já viu fotos de alguns dos seus quadros, logo se dá conta de que Frida fazia muitos autorretratos…. E é verdade! A maioria de suas telas são de composições desse tipo, no entanto o quadro a que me refiro não tem sua imagem pintada ali, mas a imagem de um dos seus vestidos. O nome da tela é “Meu vestido pendurado ali.” E traz um dos seus trajes, típicos das mulheres Zapotecas. Esse vestido está pendurado numa fita que pende entre elementos que remetem a cultura mexicana e norte-americana, bem como a tensão entre esses dois mundos. Um quadro que traz uma importante reflexão sobre aspectos políticos e sociais da época e que ecoam ainda hoje sobre esses povos. Pendurado em meio a todas as referências do quadro está o vestido tehuano, tão comumente usado por Frida como forma de lembrar desses povos que estão numa visão periférica do mundo… Ela vestia-se com importante consciência à essas referências culturais que remetem à liberdade e independência econômica feminina… Mas que, apesar disso, têm seus modos de vida colocados numa posição de  marginalidade. Suas roupas e adornos trazem a resistência de uma cultura que tem suas vozes silenciadas e a pintora sabia, lindamente, comunicar suas preferências políticas e culturais através do seu jeito de se vestir.  Com toda ousadia que me cabe, classificaria Frida como um grande expoente do estilo “viola de cego” (rs) uma grande inspiração pra mim. 

“Viola de cego” é representatividade, não apropriação cultural… É representação de elementos que valorizamos, somados a um pouco de vaidade saudável, com pitadas de exageros de cores… Com muitos toques pessoais… É reutilização e diversão!  É charme feminino para quem aprecia… Para quem não aprecia pode ser banalidade… Não se pode agradar a todos, não é mesmo?! O fato é que agora terei uma violinha para enfeitar, tal qual aquele cego do ônibus enfeitou a dele… A enfeitarei enquanto puder e enquanto ela quiser, mas se quer saber… Ficarei muito feliz se ela quiser, quando responder por si, dividir comigo essa alegria em me enfeitar para desfilar a vida por aí… No estilo Catarina de ser… Assim como a mamãe aqui tem o dela, a vovó e a “tia” Frida tb.  

Esses são fragmentos de pensamentos de uma mulher que ama se arrumar e que ama apreciar outras mulheres, amigas ou não, entusiasmadas em se mostrarem arrumadas também , talvez por isso não vê a hora de ver a mulher que espera chegar para esse time. Time de gente que se mostra como é e como gosta de ser. Catarina, venha e se mostre, minha filha! 

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