UNIDADE EM PRETO (26/03/2018)

A Segunda-feira começou com todos os professores de preto. Mesmo os que não estavam de preto nas roupas, estavam de preto nos olhos, no coração. Alguns tiraram velhas roupas do armário para tentar externar sua indignação usando a cor do enlutados. A cor do luto, também é a cor do respeito, que podia ser vista em roupas que comumente são evitadas nesses dias tão quentes, de tanto calor que temos vivido… Mas quentes também são os nossos sentimentos, os nossos clamores nesse dia em especial. Dia em que lembramos a colega agredida. Dia em que lembramos a agressão que temos vivido diariamente e que tem partido de muitas direções para a nossa direção. Uma aluna agrediu uma professora a socos e pontapés dentro de uma sala de aula. Uma aluna agrediu a todos nós docentes. Uma aluna foi porta-voz de várias entidades que nos agridem diariamente. Uma nação toda foi agredida… Essa professora, essa escola, essa família, essa aluna foram agredidas. A punição veio antes e veio hoje e, infelizmente, tudo leva a crer, que virá amanhã… Uma punição para todos nós. O que aprendemos diante de tanta punição? A nos acostumar com ela? Não… Não é o que vejo. O que vejo na minha escola, pelas ruas e nas redes sociais é que estamos de preto. Estamos mostrando que estamos de luto, que algo nos marcou tão profundamente que nos tirou um pedaço… Nos tirou a paz, a felicidade em sair cedo para trabalhar… Imagino como a colega, agredida nesse caso emblemático, acordou de manhã para mais um dia de aula. Que gosto estava em sua boca? Que sentimentos trazia dentro de si? Era preta a sua roupa? Era preta a sua angústia? Talvez sim… Mas havia um planejamento a executar… Mais uma aula a ser dada… Uma turma de alunos a esperava… A aluna que a agrediu lá estava? Se sim ou se não fisicamente, mas em memória e dor sim… Tenho certeza que sim, pois ela estava também em minha sala, em minha escola, nas escolas todas desse município… Ela está atrás da mesa que assina leis que não nos representam; Ela está em algumas famílias que não mais compreendem nosso papel, tampouco seus próprios papéis; Está também numa parcela da sociedade que nos aponta o dedo como únicos responsáveis pela educação moral dos cidadãos; Ela está em muitos lugares, em muitos rostos, em múltiplos papéis… Ela nos assombra. Ela, não é apenas a M.M. de 13 anos que estava sentada no braço de uma carteira escolar. Ela é muita gente e gente forte. Aliás, toda gente é forte e é por isso que, nós como professores, nós como também parcela da sociedade professores ou não, nós como gente somos fortes também! É por isso que vestimos preto, essa cor que demonstra força! Mais forte que todas as outras cores… Essa cor nobre e nobre também são os nossos motivos para dela nos valermos no nosso manifesto pacífico e doloroso. Somos todos pretos hoje, embora sejamos coloridos… Muitas cores, muitas diferenças entre nós, mas hoje lembramos o que temos em comum: Nossa força, nosso poder de transformação, nossa seriedade e compromisso com o nosso papel de mediadores do conhecimento. Somos uma só cor, uma só voz, um só grito… Que essa unidade nos leve além! Que nos fortaleça! Que dê visibilidade a nossa causa, que deve ser a causa das famílias, dos alunos, da sociedade, dos governantes… Que a unidade seja um imã e que sejam atraídos aqueles que desejam que o direito de todos a uma educação de qualidade seja garantido no papel e na prática, não só pelos professores, mas também pelo estado e pelas famílias. “Unidos, venceremos. Divididos, cairemos.” Alguém assim disse e eu faço dessas minhas palavras.

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Viola de cego

“Ele tirou a viola dum saco de chita e cuja viola estava toda enfeitada de fita ouvi as moças dizendo: Grande viola bonita!” Quando li esses dizeres num livreto de cordel, dos vários que meu primo Péricles deixou comigo certa vez, me lembrei de um tocador cego que me abordou num ônibus que ia de Eunápolis à Porto Seguro, há muito tempo atrás. Os versos são do cordelista Firmino Teixeira do Amaral e contam “A peleja do cego Aderaldo com Zé Pretinho”. A viola bonita citada no cordel é a do Zé Pretinho, mas me lembrou a do cego que esteve comigo no ônibus. Infelizmente não houve tempo dele falar seu nome, apenas entrou no transporte, tirou sua bela viola de dentro do saco, tocou uns versos e pediu cachê. Tudo de forma muito rápida, pois foi numa parada de embarque e desembarque de passageiros desse ônibus que tinha pressa em seguir. Reparei muito na sua viola e no saco de estopa com alguns bordados em ponto de cruz… A viola tinha tirinhas coloridas do Senhor do Bonfim amarradas em sua cabeça e imagens de santos em relevo coladas no tampo. O instrumento musical, aparentemente velho e viajado, estava todo adornado e festivo! Em mim ficaram duas impressões: Que os adornos facilitavam a localização do seu dono que tinha deficiência visual e ainda alegrava os olhos dos ouvintes com suas cores e alegorias, além, é claro, do som que produzia. Ainda por cima, esses enfeites traziam à tona as concepções religiosas desse homem, a sua fé… Me produziu grande encantamento. 

Amo enfeites! Amo adornos, bordados, cores, aplicações! Amo símbolos, significados… E gosto de imprimir esse meu gostar nas roupas que visto, no jeito como me enfeito. Adoro trocar ideias de vestimentas com minhas amigas… Sabe aquele dizer que “mulher se arruma para as amigas”? Me representa! Adoro tricotar com as amigas sobre os adereços e trajes que gosto. Futilidade? Não! Entusiasmo e alegria em me enfeitar para a vida! Tenho uma amiga com a qual compartilhamos muitos gostos em comum… Entre eles a arte de me enfeitar. Sim, pra mim é uma arte. Gostamos de quantidade de adereços e gostamos de dar recados através deles. Bijus coloridas, roupas estampadas… Tudo junto e de uma só vez. Retalhos de tecidos, reaproveitamento de peças, bijus com elementos naturais… Artesanato é vida! Ela é artesã eu apreciadora de seus fazeres. A gente gosta de montar looks cheios dessa alegria e cheio de representatividade e eu sugeri que os batizássemos de looks “Viola de cego”. Contei mais ou menos essa história pra ela, que prontamente concordou com essa denominação do nosso estilo pessoal, da nossa “Arte Naif”, nosso jeito auto-didata de fazer moda, uma moda feita por nós e para nós. 

Recentemente me descobri mãe de uma menina… Menina que ainda não chegou, mas daqui da barriga já coleciona faixas floridas para os cabelos, brinco de bolinha, turbantes coloridos e colar de âmbar… Consumismo? Não. Vontade de enfeitar essa espera deliciosa! Mais do que enfeitar, representar através do que visto, a mim e a ela, coisas que aprecio… Artes feitas à mão; Retalhos cortados e costurados pela avó; Flores de tecido feitas por uma tia avó; Crochês por outra; Casacos tricotados pela Bisa… Cores das mais diversas, camisetas com belas frases… A força, a doçura, a feminilidade… Coisas que muito admiro. Claro que quando começar a dizer o que pensa, ela pode não gostar das mesmas roupas e adornos que eu… Aí vou ouvi-la com atenção e contemplar o nascimento do seu próprio jeito de dar o recado… Não vou me frustrar por isso (pelo menos, espero que não rs)… Vou admirá-la, assim como admiro várias outras mulheres que têm outra postura sobre seus jeitos de se arrumar. Minha mãe, por exemplo, mulher forte e frágil num equilíbrio constante entre essas duas características e numa constância linda de ser e estar entre nós e nela mesma, ama se vestir com as roupas que ela mesma faz e quase todas são do mesmíssimo modelo. Mudam apenas as estampas, embora todas se pareçam… Seus batons e esmaltes são sempre nos mesmos tons… Seu estilo é muito seu e eu acho o máximo! 

Se enfeitar é mais do que mera casca fútil… Se enfeitar é dar recados, é contar sobre escolhas e preferências. Quero ilustrar essa conversa com um quadro lindíssimo de uma artista que me fascina: Frida Kahlo. Quem já viu fotos de alguns dos seus quadros, logo se dá conta de que Frida fazia muitos autorretratos…. E é verdade! A maioria de suas telas são de composições desse tipo, no entanto o quadro a que me refiro não tem sua imagem pintada ali, mas a imagem de um dos seus vestidos. O nome da tela é “Meu vestido pendurado ali.” E traz um dos seus trajes, típicos das mulheres Zapotecas. Esse vestido está pendurado numa fita que pende entre elementos que remetem a cultura mexicana e norte-americana, bem como a tensão entre esses dois mundos. Um quadro que traz uma importante reflexão sobre aspectos políticos e sociais da época e que ecoam ainda hoje sobre esses povos. Pendurado em meio a todas as referências do quadro está o vestido tehuano, tão comumente usado por Frida como forma de lembrar desses povos que estão numa visão periférica do mundo… Ela vestia-se com importante consciência à essas referências culturais que remetem à liberdade e independência econômica feminina… Mas que, apesar disso, têm seus modos de vida colocados numa posição de  marginalidade. Suas roupas e adornos trazem a resistência de uma cultura que tem suas vozes silenciadas e a pintora sabia, lindamente, comunicar suas preferências políticas e culturais através do seu jeito de se vestir.  Com toda ousadia que me cabe, classificaria Frida como um grande expoente do estilo “viola de cego” (rs) uma grande inspiração pra mim. 

“Viola de cego” é representatividade, não apropriação cultural… É representação de elementos que valorizamos, somados a um pouco de vaidade saudável, com pitadas de exageros de cores… Com muitos toques pessoais… É reutilização e diversão!  É charme feminino para quem aprecia… Para quem não aprecia pode ser banalidade… Não se pode agradar a todos, não é mesmo?! O fato é que agora terei uma violinha para enfeitar, tal qual aquele cego do ônibus enfeitou a dele… A enfeitarei enquanto puder e enquanto ela quiser, mas se quer saber… Ficarei muito feliz se ela quiser, quando responder por si, dividir comigo essa alegria em me enfeitar para desfilar a vida por aí… No estilo Catarina de ser… Assim como a mamãe aqui tem o dela, a vovó e a “tia” Frida tb.  

Esses são fragmentos de pensamentos de uma mulher que ama se arrumar e que ama apreciar outras mulheres, amigas ou não, entusiasmadas em se mostrarem arrumadas também , talvez por isso não vê a hora de ver a mulher que espera chegar para esse time. Time de gente que se mostra como é e como gosta de ser. Catarina, venha e se mostre, minha filha! 

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Não me dê flores!

Lívia Maria Extremus21
Lívia Maria Extremus21

Não me dê flores! Veja as minhas lutas, escute as tentativas de silenciamento da minha expressão feminina. Mire nas ervas daninhas que impedem que eu floresça, que eu espalhe o meu perfume, o meu pólen, as minhas cores e beleza pelos jardins do mundo.

No meu amanhecer, deixe-me brincar com os brinquedos que desejo, me vestir com as cores que eu escolher sem tentar me encaixar em estereótipos pré-concebidos sobre o que é ser uma menina. Não suponha que não consigo ou não possa fazer certas coisas usando o envelhecido argumento “isso não coisa de menina”. Não pode minha autenticidade não castre minhas potencialidades!

Com o meu traje adulta, mato muitos leões por dia, contribuo no sustento do lar, sou chefe de família, acumulo múltiplas jornadas… mãe, esposa, dona de casa, estudante, trabalhadora… Coloco o pão em casa, mas preciso também fazer o café, colocar e tirar a mesa, cuidar das louças… Invisivelmente estou a me empenhar financeira e afetivamente com um lar, que tem como chefe uma única pessoa, que não sou eu e que muitas vezes é o meu próprio algoz. [Sim a violência doméstica persiste, e em muitos lares eu sou a primeira vítima!]

Não me dê flores! Escute meu cansaço, meus pés cansados das múltiplas jornadas que enfrento fora e dentro de casa… Escute meus lamentos… Minhas risadas também carecem ser escutadas com respeito e, porque não, com alegria! Escute quando eu me calo… Fui criada para me calar, para conceder… Mas isso não me compraz… Tenho muito dentro de mim, muito que dizer… Abusos psicológicos velados calam minha autoestima, minha alegria, meus sonhos…

Nos espaços de poder e decisão sou sub-representada. Somos minoria na política, mesmo sendo mais da metade da humanidade. No trabalho travamos todos os dias lutas invisíveis aos olhos de muitos. Quando exercemos funções culturalmente destinadas aos homens temos nossas capacidades sarcasticamente questionadas. Exercemos a mesma função e em muitos casos ganhamos menos que eles. [Sim, os salários das mulheres são comprovadamente ainda inferiores aos dos homens. Algo sabido, mas convenientemente ignorado pela grande maioria…]

Não me dê flores! Me deixe exalar meus odores do suor da minha luta, do perfume que uso para me festejar, para festejar a vida! Me deixe com minhas cores todas… Se me pinto, se me lavo… Se me adorno, se me desnudo… Tudo isso sou eu!  Veja meu corpo… é a minha casa e nela estão registrados os meus gostos, meus valores. Nela entra quem eu quero, quem convido, quem me convém e quando me convém. E que fique claro: Assédios e estupros não acontecem porque eu estava onde não “devia” vestindo o que não era “conveniente”. Não coloque sobre os meus ombros essa culpa. [As taxas diárias desta violência aterrorizante são alarmantes!] Portanto, não me dê flores, me dê liberdade de ser quem sou, ir e vir em segurança e respeito onde os meus pés quiserem me levar!

A minha condição de mulher tem sido um risco para minha própria existência. Posso morrer no auge da minha juventude, vítima daqueles que me tratam como objeto e me subjugam exercendo controle sobre a minha vida e morte para simplesmente satisfazer os desejos de uma mente doentia e criminosa. [O Brasil está entre os países com o maior índice de feminicídios!]  Portanto, não me dê flores, deixe-me viver!

 

Quitéria Costa Extremus21
Quitéria Costa - Colunista Extremus21

Não me dê flores! Olhe por dentro… Compreenda que para dizer tudo que hoje eu digo e para viver o que vivo foi preciso muita luta! Luta de mulheres que estiveram aqui em outros tempos. Tempos mais difíceis que este… Ainda não disse tudo, não disse a que vim… Coisas, pessoas, ideias ainda tentam me deter… Preciso me desconstruir da ideia de submissão, de silêncio, de incapacidade… Ainda me vejo refém de expectativas culturais e sociais sobre a forma como devo me comportar, como devo exercer minha maternidade, como devo me vestir, onde devo ir… Isso me castra, me violenta…

Não me dê flores! A violência que sofro cotidianamente não pode ser redimida com um buquê de rosas, com um dia de beleza ou com palavras elogiosas que dizem que somos “doces”, “fortes”, “especiais”, mas que no dia seguinte se transformam em poeira de purpurina solta no ar…

Não me dê flores! Não hoje…Neste dia sagrado para a luta das mulheres do mundo inteiro, reverencie conosco a memória daquelas que deram suas vidas naquela fábrica têxtil à milhares de marços atrás. Honremos as lutas diárias de tantas anônimas que continuam bravamente a enfrentar as dores e as delícias de ser ter nascido Maria.

Ajude-nos a enfrentar a despolitização e apropriação desta data pela lógica capitalista e machista que tentam com discursos superficiais e falaciosos descaracterizam as nossas pautas.

Me dê a sua mão, reconheça e valorize a nossa luta, não hoje apenas! Deixe-me ser quem sou todos os dias do ano… E isso não é um pedido de permissão. É um pedido de respeito e reconhecimento de igualdade!

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O caso do carrinho rosa

Gosto de defender a diferença entre os presentes dados e os presentes sidos. Os dados são os bens materiais, as prendas, os mimos, gestos de carinho… Mas o mais importante são os presentes sidos, a presença, o colo, a mão estendida. Os presentes dados correm o risco de serem usados para simples cumprimento de protocolo: Aniversários, dia dos namorados, dia disso e daquilo… Os sidos não têm hora nem lugar, acontecem. Gosto dos dois, mas prefiro os sidos. Vovô Gió é desses presentes sidos na vida de Antônio. Volta e meia ele nos surpreende com suas visitas relâmpagos, de quem “estava passando por aqui e resolveu entrar”. Suas chegadas são sempre festejadas pelo netinho que corre para seus braços imitando um grunhido que já virou brincadeira entre os dois: “Vovô Gió faz ‘AGRRR’”. O neto e o avô compartilham gostos em comum, entre eles o amor por bananas. Este, sempre que o neto está em sua casa faz questão de comprar uma penca delas e o convida a comer também. Já aconteceu dele trazer a fruta para nossa casa, como presente. Outro presente fofo e muito bem pensado que ele resolveu trazer esses dias foi um saco enorme de biscoito “avoador” bem fresquinho (O preferido do menino). Esses presentes dados revelam um carinho especial, pois não têm hora nem data para acontecer, assim como os sidos. Ele vê algo que lembrou o neto, algo que era importante para ele e resolve trazer como prenda. Claro que a gente adora!

Aconteceu que numa manhã de sábado vovô veio mais uma vez fazer compras pelo centro de Teixeira. Compra daqui, compra dali pensou: “Vou levar um carrinho de presente para Antônio.” Bem, ele não me contou essa parte do caso, sou eu quem suponho (rs). A parte do caso que eu presenciei foi um buzinar frenético que anunciava sua chegada, o menino correndo já sabendo quem seria e o senhor entrando com uma sacola grande nas mãos dizendo que é para o “menino de vovô”. Antônio sorriu meio sem entender, ele ainda não é muito ligado a presentes dados… Mas adora caixas. Ele disse: “Olha, é uma caixa, mamãe”. Eu afirmei que sim e o ajudei a abrir. De acordo íamos abrindo, fui percebendo que se tratava de um presente diferente de todos que ele tinha ganhado até então. Uma caixa rosa escrito “Car girl power”… Vovô Gió não sabe inglês, eu também não… Mas sei que Girls quer dizer “garota” e diante da expressão e da cor da caixa vi que se tratava de um “carro de menina”. Ele sorria de contentamento enquanto Antônio abria o presente. O menino, que tem uma memória de elefante e conhece todas as cores disse: “Carro rosa”. O avô olhou surpreso e falou: “É branco vovô, tem só uma parte rosa…” E eu confirmei que era isso mesmo, branco com detalhe rosa… Não fez diferença, Antônio acha linda a cor rosa, acha linda a cor branca, ama as cores e amou o carrinho… Correu com ele para o escorregador, ou pista com rampa nesse momento, e começou a brincar com o novo brinquedo. Minutos depois, enquanto eu tomava um café com o sogro, o pai do menino chegou e logo perguntou: “Quem deu esse carro rosa pra simininu, mãe?” O avô voltou a se defender: “É branco, gente… O carro é branco..” E eu disse: “É branco, amor… Seu pai que trouxe de presente e ele amou”. A essa altura percebi que todos perceberam o “equívoco”, menos a criança, que não estava nem aí para esse negócio de “cor de menino” e “cor de menina”, muito menos “brinquedo de menino” e “brinquedo de menina” pois, ele sim, sabe que isso não tem o menor cabimento… O maior interessado, o dono do presente, brincou bastante com a prenda. Mais tarde, quando vovô foi embora, George disse: “Nega, vamos dar esse carrinho de presente para Maria Sophia”. A menina é nossa sobrinha de coração, mas não, eu não concordei em transferir o presente para ela. Ele argumentou: “Mas pai se enganou, ele não reparou que o carro era de menina, etc etc…” Eu: “O carro não é de menina, é de um menino, Antônio o nome dele. Foi dado com muito amor e não vamos tirá-lo daqui.” Ele acabou concordando… No entanto disse: “Se o bebê que estamos esperando for menina dá pra ela brincar então.” Eu não falei mais nada, mas é claro que ela ou ele poderá brincar com o carrinho e com qualquer outro brinquedo do irmão… Brinquedo não tem sexo. Algumas pessoas que vieram em casa logo depois que o carrinho chegou, já estranharam a presença dele aqui entre os brinquedos e eu tenho um grande carinho em contar essa história. Conto não só justificando a presença do brinquedo, mas deixando claro o quanto Antônio é amado pelo avô. É muito comum os avôs, inclusive os de Antônio, darem o dinheiro para as avós ou tias comprarem um presente para os netos… Mas não é comum um homem de setenta anos ir sozinho á repartição de brinquedos de uma loja de departamento e escolher um presente para uma criança… Certamente embebido pela satisfação em poder apresentar o neto, o avô não ficou atendo a cor do brinquedo, só conseguiu imaginar o quanto o menino ficaria feliz em recebe-lo… E ficou! Essas são exceções da vida que me encantam profundamente e me fazem agradecer a Deus pelas pessoas especiais que cercam a vida do nosso simininu. A compra do carro rosa não foi um engano. Engano é achar que brinquedo tem sexo e que sexualidade é definida por cor. O carrinho rosa está como símbolo dessa exceção, dessa iniciativa do avô em dizer ao neto, através de um brinquedo, o quanto ele o ama e o quanto ama fazê-lo feliz.

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Coração nos olhos

Certa vez uma amiga minha me disse que eu tenho o coração nos olhos. Aliás, volta e meia ela diz isso… Renata me presenteia com esse elogio, dos que eu mais gosto de ouvir, por conta da minha tendência em olhar os detalhes das coisas com poesia… Pela minha mania em ver o lado bom das situações. Já me perguntei algumas vezes se eu não sofria da chamada “Síndrome de Pollyana”, referindo-se àquela menina que habita um clássico da literatura infanto-juvenil do século XX. A primeira vez que ouvi falar sobre ela foi através de minha mãe que leu o livro com seu nome e me indicou um filme baseado nesse conto que ia passar na Sessão da Tarde. Corri para assistir e o que vi me chamou especial atenção: Uma menina que, mesmo em meio a tanto sofrimento que sua condição de órfã lhe trazia, brincava do “jogo do contente”, que consistia em ver o lado positivo de tudo.

No meu primeiro contato com o clássico fiquei contagiada e motivada a fazer seu jogo, afinal de contas, eu fazia parte do público alvo da história, como eu disse, o infanto-juvenil, e dele fazem parte esses seres sociais cheios de pureza e sonhos que são as crianças. Mais tarde, novamente, tive contato com esse clássico, já despida daquele olhar puro e onírico da infância e contaminada pela seriedade e excessos de verdade do mundo adulto… Nesse segundo contato com a menina que via o mundo cor-de-rosa, me deparei com as críticas em torno daqueles que vêm a vida sob essa ótica de otimismo e resiliência, assim como a menina do clássico. Nessas críticas, tais pessoas são vistas como quem “foge da realidade” e enxerga o mundo com um olhar ingênuo e desprovido de senso crítico. A menina que tanto me inspirou na infância, era agora ridicularizada por seu otimismo e entusiasmo com a vida…

Numa certa ocasião enquanto eu, meu marido e um casal de amigos andávamos numa rua dessas sem calçamento eu comentei com Milena, a mulher do casal, sobre a lindeza de uns matinhos floridos que ali estavam… Antes disso tinha comentado sobre o fato de meu marido ser meio ranzinza em relação a muitas coisas e sobre suas reclamações vãs que não mudam os fatos dos quais reclama e , com isso, torna o ar, por vezes, meios pesado, desnecessariamente pesado. Ela concordou comigo sobre os lindos matinhos em flor que resistiam ali beirando as calçadas apesar do pisões dos transeuntes e do descaso da sorte. Enquanto comentávamos sobre isso meu marido ranzinza e tão amado soltou, sem nos ouvir “E esses matos chatos que sujam a rua toda? Que descaso das autoridades…” Etc e tal. Nós duas nos entreolhamos e demos risada daquela reclamação vazia de funcionalidade, nos lembramos da conversa anterior sobre essa característica dele e não demos continuidade à nossa conversa e tão pouco o apoiamos na sua reclamação. O papo morreu ali, mas nesse instante nasceu em mim uma certeza: Que prefiro mesmo é ver a beleza das coisas do que me lamentar por aquilo que não vou resolver, seja por não poder ou por não me mobilizar para tanto. Claro que as autoridades devem se preocupar com a limpeza e organização das ruas e claro que naquele sábado em que andávamos ali não queríamos falar sobre isso… Mesmo porque eram só matinhos, não tinha lixo, eles não eram sujeira… Só cresciam naquele lugar porque a rua não era pavimentada (um problema tão comum a tantas outras ruas).

Então eu aqui, da singeleza dos meus escritos, quero registrar a minha crença de que essa “Síndrome de Pollyana” não existe. É uma invenção de uma sociedade que quer nos “despoetizar”. Quero defender que as pessoas que, por ventura, desejam fugir de realidades tristes que assolam suas vidas e preferem viver de sonhos e fantasias têm todo meu respeito. Afirmo ainda que, mesmo as respeitando, não sou dessas pessoas… Sou alguém que procura ver o lado bom das coisas, sem me esquecer de refletir sobre o outro lado da moeda… Sem ter medo de mudar de opinião e sem medo de lutar por mudanças quando de fato necessárias. Prefiro acreditar que sou adepta da teoria de Manoel de Barros. Batizada nesse momento por mim, essa teoria defende a ideia de se encantar pelas coisas “desimportantes” desse mundo e tem como uma de suas premissas “presar mais passarinhos que aviões”. Não se trata de um olhar meramente ingênuo e bobo em relação às coisas. Trata-se de ter respeito e paciência em relação à vida…  Trata-se de gratidão à Deus. É sobre ter o coração nos olhos. E sobre meu marido, ouso dizer que ele está se contagiando pela teoria do poeta das “ignorãnças” pois, um dias desses, me chegou assim sem mais nem menos e disse, sorrindo, que se fizesse sol iríamos à praia e caso chovesse iríamos também, pois quando estamos juntos (eu, nosso filho e ele) qualquer lugar fica bom.

Lívia Maria é mãe de Antônio, pedagoga e professora de educação infantil.

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