As perguntas pedem espaço

Os assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes no Rio de Janeiro na última semana, surpreenderam e geraram grande comoção não apenas nos familiares, amigos e nos mais de 46 mil eleitores a quem Marielle representava na Câmara de Vereadores do Rio. Provocaram indignação e pesar também em milhares de pessoas que se identificam com as lutas da vereadora e não se conformam com a violência estrutural que dizima milhões de pessoas no Brasil, sobretudo entre as populações mais pobres e marginalizadas da sociedade.

Recebendo apoio de lideranças políticas e religiosas, organizações de classe, artistas, intelectuais, representantes de distintos movimentos sociais e de organizações internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) o caso alcançou grande repercussão em todo o Brasil e em diferentes países pelo mundo. Em diversos lugares foram organizados protestos que expressaram emoções, denúncia e, sobretudo a força da união daqueles/as que lutam por um justo e digno viver para todos/as.

Se de um lado, acompanhamos tantas expressões de solidariedade e compaixão contemplando a face bela e terna da humanidade, de outro presenciamos um verdadeiro show de horrores em relação a Marielle, especificamente.  As tentativas de assassinar também a sua honra utilizando-se das fake news, dos comentários maldosos, do discurso de ódio e intolerância propagados pelas redes sociais, evidenciaram a face violenta, espinhosa e torpe de seres humanos que nos fazem acreditar que a crise civilizatória que temos vivido é mais aguda do que imaginamos.

Marielle carregava em si todos os “estigmas” que despertam a intolerância, o desrespeito e o ódio em muitos: era uma ativista dos direitos humanos, mulher negra, lésbica e favelada. Aqueles/as que ainda não conseguiram reconhecer as gritantes desigualdades econômicas, de raça, de gênero e outras tantas, como causas da violência tendem à culpabilização das vítimas e perante um caso emblemático como este, vociferam tentando deslegitimar as lutas por igualdade de direitos.

Era contra todas essas desigualdades que a “Cria da Maré” (assim ela se definia) protestava! Era a favor dos “deserdados da terra” e pela igualdade de direitos que ela bravamente lutava. Sofreu na própria pele tudo que denunciava, contrariou todos condicionamentos impostos pela sua condição social, racial e de gênero, mas não viveu só para si. Enriqueceu o seu viver fazendo da sua vida uma entrega solidária, se colocando como porta-voz de uma maioria curiosamente chamada de minorias.

O que a vida e o contexto em que se dá a morte de Marielle Franco nos leva a refletir? Qual a sua simbologia? Qual o legado da sua memória para as mulheres, para os negros, para os favelados, para as vítimas da violência e para os ativistas dos direitos humanos?

Não tenho a pretensão de uma análise sobre o caso (muitos já fizeram isso brilhantemente) e nem de apresentar respostas a questões tão complexas (isso também nem me seria possível). O que faço é um convite aflito para que lancemos mais perguntas… Como sabiamente diz o escritor português José Saramago “tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas?”. Não acredito que possamos encontrar respostas para problemas tão difíceis sem nos indagarmos profundamente. Penso que o tempo em que investirmos elaborando boas perguntas será salutar em nos proporcionar o encontro com as respostas que esperamos do mundo.

Reforçando a pedagogia da pergunta, Jostein Gaarder também ensina sobre o valor da interrogação. Segundo o autor “A resposta é sempre um trecho do caminho que está atrás de você. Só a pergunta pode apontar o caminho para frente”. Portanto para colocarmos luz nesse caminho turvo é importante saber: quem? Como foi tramada e o por quê da morte de Marielle? Mas é também fundamental formularmos perguntas que nos leve até as profundidades do solo que produziu o seu extermínio e que tem produzido o de tantos milhões, vítimas da barbárie que tem assolado não apenas o Rio de Janeiro, mas centenas de cidades brasileiras, inclusive a nossa.

É necessário nos indagarmos também sobre as raízes de tanto ódio e intolerância que tem marcado a convivência humana. Por que humanos contra direitos de seus próprios semelhantes? Por onde andarão a racionalidade e a ética daqueles/as que embora não disparem o gatilho das armas, disparam o discurso da intolerância às diferenças, da violência simbólica e da mentira que trucida a reputação das pessoas que não comungam dos mesmos princípios e valores que eles/as.

Onde andará a habilidade de interpretação e a coerência daqueles/as que se apresentam como cristãos, mas acreditam na superação da violência com a produção de mais violência, legitimam o derramamento de sangue e a propagação da insana máxima “bandido bom é bandido morto?” propondo com ironia o silenciamento dos ativistas pelos direitos humanos?

O que pensar sobre a naturalização das desigualdades sociais que se revelam numa absurda concentração de renda nas mãos de um pequeno grupo? Quem rumos tomar perante um Estado com uma estrutura corrompida e rendido aos interesses do capital cumprindo o papel imoral de distribuir migalhas aos mais pobres e excluídos do sistema?

Imersos neste cenário que tentam nos limitar, ameaçam as nossas esperanças nos roubando também a paz de espírito, resta a quem não milita nos campos da violência, da intolerância e do desrespeito dois caminhos:  o da omissão ou o caminho de um renovado contrato com a ética, com o respeito à vida, com a gentileza, com a justiça e a igualdade social. Nesse último, a presença e o testemunho de Marielle certamente nos acompanharão e nos inspirarão.

Quitéria Costa é pedagoga, mestra em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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Não me dê flores!

Quitéria Costa Extremus21
Quitéria Costa - Colunista Extremus21

Não me dê flores! Veja as minhas lutas, escute as tentativas de silenciamento da minha expressão feminina. Mire nas ervas daninhas que impedem que eu floresça, que eu espalhe o meu perfume, o meu pólen, as minhas cores e beleza pelos jardins do mundo.

No meu amanhecer, deixe-me brincar com os brinquedos que desejo, me vestir com as cores que eu escolher sem tentar me encaixar em estereótipos pré-concebidos sobre o que é ser uma menina. Não suponha que não consigo ou não possa fazer certas coisas usando o envelhecido argumento “isso não coisa de menina”. Não pode minha autenticidade não castre minhas potencialidades!

Com o meu traje adulta, mato muitos leões por dia, contribuo no sustento do lar, sou chefe de família, acumulo múltiplas jornadas… mãe, esposa, dona de casa, estudante, trabalhadora… Coloco o pão em casa, mas preciso também fazer o café, colocar e tirar a mesa, cuidar das louças… Invisivelmente estou a me empenhar financeira e afetivamente com um lar, que tem como chefe uma única pessoa, que não sou eu e que muitas vezes é o meu próprio algoz. [Sim a violência doméstica persiste, e em muitos lares eu sou a primeira vítima!]

Não me dê flores! Escute meu cansaço, meus pés cansados das múltiplas jornadas que enfrento fora e dentro de casa… Escute meus lamentos… Minhas risadas também carecem ser escutadas com respeito e, porque não, com alegria! Escute quando eu me calo… Fui criada para me calar, para conceder… Mas isso não me compraz… Tenho muito dentro de mim, muito que dizer… Abusos psicológicos velados calam minha autoestima, minha alegria, meus sonhos…

Nos espaços de poder e decisão sou sub-representada. Somos minoria na política, mesmo sendo mais da metade da humanidade. No trabalho travamos todos os dias lutas invisíveis aos olhos de muitos. Quando exercemos funções culturalmente destinadas aos homens temos nossas capacidades sarcasticamente questionadas. Exercemos a mesma função e em muitos casos ganhamos menos que eles. [Sim, os salários das mulheres são comprovadamente ainda inferiores aos dos homens. Algo sabido, mas convenientemente ignorado pela grande maioria…]

Não me dê flores! Me deixe exalar meus odores do suor da minha luta, do perfume que uso para me festejar, para festejar a vida! Me deixe com minhas cores todas… Se me pinto, se me lavo… Se me adorno, se me desnudo… Tudo isso sou eu!  Veja meu corpo… é a minha casa e nela estão registrados os meus gostos, meus valores. Nela entra quem eu quero, quem convido, quem me convém e quando me convém. E que fique claro: Assédios e estupros não acontecem porque eu estava onde não “devia” vestindo o que não era “conveniente”. Não coloque sobre os meus ombros essa culpa. [As taxas diárias desta violência aterrorizante são alarmantes!] Portanto, não me dê flores, me dê liberdade de ser quem sou, ir e vir em segurança e respeito onde os meus pés quiserem me levar!

A minha condição de mulher tem sido um risco para minha própria existência. Posso morrer no auge da minha juventude, vítima daqueles que me tratam como objeto e me subjugam exercendo controle sobre a minha vida e morte para simplesmente satisfazer os desejos de uma mente doentia e criminosa. [O Brasil está entre os países com o maior índice de feminicídios!]  Portanto, não me dê flores, deixe-me viver!

Lívia Maria Extremus21
Lívia Maria Extremus21

Não me dê flores! Olhe por dentro… Compreenda que para dizer tudo que hoje eu digo e para viver o que vivo foi preciso muita luta! Luta de mulheres que estiveram aqui em outros tempos. Tempos mais difíceis que este… Ainda não disse tudo, não disse a que vim… Coisas, pessoas, ideias ainda tentam me deter… Preciso me desconstruir da ideia de submissão, de silêncio, de incapacidade… Ainda me vejo refém de expectativas culturais e sociais sobre a forma como devo me comportar, como devo exercer minha maternidade, como devo me vestir, onde devo ir… Isso me castra, me violenta…

Não me dê flores! A violência que sofro cotidianamente não pode ser redimida com um buquê de rosas, com um dia de beleza ou com palavras elogiosas que dizem que somos “doces”, “fortes”, “especiais”, mas que no dia seguinte se transformam em poeira de purpurina solta no ar…

Não me dê flores! Não hoje…Neste dia sagrado para a luta das mulheres do mundo inteiro, reverencie conosco a memória daquelas que deram suas vidas naquela fábrica têxtil à milhares de marços atrás. Honremos as lutas diárias de tantas anônimas que continuam bravamente a enfrentar as dores e as delícias de ser ter nascido Maria.

Ajude-nos a enfrentar a despolitização e apropriação desta data pela lógica capitalista e machista que tentam com discursos superficiais e falaciosos descaracterizam as nossas pautas.

Me dê a sua mão, reconheça e valorize a nossa luta, não hoje apenas! Deixe-me ser quem sou todos os dias do ano… E isso não é um pedido de permissão. É um pedido de respeito e reconhecimento de igualdade!

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Quem é o seu padrão?

A preocupação com a forma do corpo físico sempre esteve presente na vida de homens e mulheres de todos os tempos. Se fizermos um sobrevoo pela história com o foco na questão, vamos notar em cada época a valorização de um determinado tipo físico como padrão estético predominante. Observamos que a preocupação com a forma física é algo que para além dos cuidados com a saúde tem a ver com sentir-se bonito (a), sentir-se aceito (a) socialmente e sentir-se bem encaixado (a) no padrão de beleza estabelecido pela cultura de uma época.

O padrão de beleza vigente na atualidade exige corpos magros, abdomens de tanquinho, músculos definidos, peitos siliconados, celulite zero, bumbum empinado, dentre outros atributos… Para isso, é exigido que frequentemos academias e estabeleçamos constante vigilância sobre a alimentação, buscando os alimentos e/ou estilos alimentares que melhor favoreçam o encaixe no referido padrão e que nos ajude a adentrar no tão desejado mundo fitness.

O apelo para este encaixe é direcionado para homens e mulheres, no entanto, o corpo feminino é o mais cobrado para que se adeque ao molde “fit” pré-estabelecido. As mulheres são geralmente as que tem os seus corpos mais regulados, mais expostos às críticas, sejam por elas mesmas, experimentando um profundo sentimento de inadequação (quantas de nós estamos satisfeitas com os nossos corpos?), sejam pelas amigas, pela família, pelos companheiros e até mesmo por desconhecidos que expõem deliberadamente suas opiniões, tratando o corpo alheio como coisa pública.

Mesmo as mulheres famosas que estão na mídia não escapam desse desagradável desconforto. Tem sido comum assistirmos à ridicularização dos corpos de famosas nas redes sociais que são submetidos à críticas cruéis e desrespeitosas, por mostrarem uma celulite ou estria, por apresentarem uma dobrinha ou um peito natural, por estarem num peso fora do estabelecido pelo padrão (lembrando que muitas magrinhas também sofrem com tudo isso).

Dentre as famosas que já passaram pela experiência no mínimo incômoda de terem os seus corpos patrulhados por geral, relembremos o ocorrido com Bruna Marquezine, criticada nas redes sociais por exibir um peito natural em sua fantasia no último carnaval. Sim, natural! As pessoas se habituaram tanto com a artificialidade dos peitos siliconados que se espantaram ao ver um peito natural… Ou seja, as mulheres devem lutar contra o tempo, contra a lei da gravidade e precisam posar sempre esticadas para que caibam na forma do irreal ideal de beleza propagado.

Somos bombardeadas por imagens de modelos, atrizes e musas fitness que exibem nas revistas e perfis das mídias sociais, corpos esculpidos (muitos alterados por programas de manipulação de imagens) bem distantes dos corpos reais da maioria das mortais. Tal quadro ajuda a alimentar em milhões de mulheres, adolescentes e até mesmo em crianças algo surreal:  a ilusão de que elas é que são imitações mal feitas das fotografias manipuladas que vemos por aí, quando na verdade é justamente o contrário.

Buscando conter esta manipulação de imagens o governo francês no ano passado adotou uma regra determinando, sob pena de multa, que todas as fotografias retocadas publicadas por agências de publicidade informem que se trata de uma imagem manipulada. Esta medida já adotada também em outros países traz uma alerta importante, pois trata a questão como um problema de saúde. A ministra da Saúde da França, Marisol Touraine afirmou na época, que “Expor jovens a imagens normativas e irrealistas leva a uma sensação de autodepreciação e de baixa autoestima que pode afetar comportamentos relacionados à saúde”.

E você? Já parou para refletir sobre essas questões? Já pensou no impacto do “marketing da indústria fitness” e das imagens “photoshopadas” sobre a autoestima e a saúde mental de meninas e mulheres? Para sentir-se bonita(o), sentir-se aceita(o) socialmente é mesmo necessário se amoldar a um padrão estético?  Você acha que a sua beleza cabe num padrão? Quem é o seu padrão?

É fundamental refletir sobre essas questões, pois a maioria de nós sofre cotidianamente as influências e os efeitos da cultura da aparência. Esta cultura, se utilizando do legitimo desejo que todo ser humano possui de sentir-se bonito e aceito produz uma completa inversão de valores fazendo-nos acreditar que a felicidade mora de fato numa determinada configuração corporal.

Apesar de no Brasil não existirem dados muito precisos sobre o número de pessoas com transtornos alimentares, pesquisas apontam cada vez mais correlação entre culto excessivo ao corpo, distorção da imagem corporal e transtornos alimentares. A boa notícia é que atentos à milhares de pessoas que sofrem desses transtornos e embasados em pesquisas sobre esses assuntos tem surgido no Brasil e no mundo movimentos que contestam com veemência o “culto à beleza padronizada” alertando sobre os seus efeitos na saúde mental de milhares de meninas e mulheres.

Campanhas como o “Body Positive” que estimulam a autoaceitação e valorização dos diversos tipos de beleza, blogs como o “Não Sou Exposição” da nutricionista Paola Altheia, canais no You Tube como o “Eu vejo” da jornalista Daiana Garbin são alguns dos inúmeros canais digitais que difundem conteúdos levantando essas bandeiras. São movimentos de vanguarda que lutam pela liberdade da beleza e por mais saúde, ousando romper com uma cultura que uniformiza e desvaloriza a beleza real ao ditar um estereótipo de corpo que apesar de sustentado pelo discurso falacioso da saúde, está na verdade comprometido com os interesses das indústrias que lucram com tudo isso. Vale a pena se informar, vale a pena se inspirar e contribuir com esta mudança. A saúde mental, inclusive de crianças e adolescentes agradece.

P.S: Não há nada de errado em cuidar do corpo e da aparência. Não há aqui qualquer defesa à obesidade, ao sedentarismo ou à uma alimentação sem qualidade. Há sim um convite a uma percepção mais crítica sobre padrões que tentam nos enquadrar, desrespeitam a nossa singularidade, nos oprimem e adoecem.

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Hei, você é Feminista?
(a pergunta é também para os homens)

Apesar dos avanços alcançados com a luta do movimento feminista no decorrer da sua história, as desigualdades de gênero persistem entre as principais causas de sofrimento e exclusão de milhares de mulheres no mundo inteiro. Em uma rápida pesquisa pela internet vamos constatar em  muitos contextos sociais que ser mulher ainda significa: estar entre os mais vulneráveis à violência doméstica e em muitas situações até à morte, (os índices de feminicídio são altíssimos no Brasil); sofrer violência sexual e ser culpada por isso; encarar dupla jornada de trabalho assumindo sozinha as tarefas domésticas e de cuidados com os filhos; ser sub-representada em espaços de poder na sociedade; ter suas capacidades questionadas ao aspirar determinados papéis sociais;  ter a vida sexual regulada pela sociedade; ter remuneração inferior à dos homens atuando na mesma função; ter as suas pautas e estratégias de luta rotuladas como “mimi de feministas”.

Mas o que significa ser feminista hoje? Você se considera uma/um feminista? Considero essa questão muito importante, pois ainda é comum, pelo menos no meu círculo de convivência, ouvir de homens e até mesmo de mulheres frases que interpreto como pejorativas e equivocadas sobre o feminismo e sobre o que é ser feminista.

Certa vez, participando de um evento sobre violência contra a mulher ouvi de uma colega (profissional liberal que ocupa um cargo de poder na sociedade), o famoso jargão ainda reproduzido por muitas mulheres, infelizmente: “malditas feministas que foram queimar sutiãs para que a gente tivesse hoje que trabalhar fora e ainda assumir as tarefas domésticas… Como gostaria de estar apenas em casa!” No momento apenas disse a ela que eu não era especialista no assunto (e continuo não sendo, minha visão sobre o assunto vem do meu lugar de fala enquanto mulher), mas que não tinha conhecimento de nenhum movimento feminista que tivesse lutado para que TODAS as mulheres fossem OBRIGADAS a trabalharem fora de casa abandonando os afazeres domésticos e acumulando jornadas de trabalho.

Não pude prolongar a discussão com a minha colega naquele momento, mas fiquei refletindo sobre como reconhecer a injustiça de gênero e lutar por igualdade era algo complexo. Compreendi que entender o feminismo, para além dos seus limites e dos estereótipos (feministas são mal amadas, não gostam de homens, são feias e desleixadas com a aparência, são mães desnaturadas etc.) que se constroem sobre ele é fundamental!

“Todos nós devemos ser feministas”! Este é o título de uma palestra da escritora nigeriana, Chimamanda Adichie para o TeDx Euston. O seu discurso teve trechos utilizados na música “Flawless” da cantora Beyoncé e posteriormente foi adaptado para o livro “Sejamos Todos Feministas” lançado pela Companhia das Letras. Para Chimamanda “feminista é um homem ou mulher que acredita na igualdade econômica, social e política dos sexos, que diz: sim, há um problema com os gêneros hoje e nós devemos consertar isso! Devemos fazer melhor”. É nessa perspectiva de feminismo que me aventuro na tentativa de discutir brevemente sobre a luta pela igualdade de gênero no cenário atual.

Observo, sobretudo por meio das redes sociais, certa “efervescência feminista” que de forma incisiva e renovada persiste no ideal de fazer a sociedade reconhecer que nós mulheres temos igualmente valor e capacidade para realizar muitas coisas que a cultura machista e patriarcal tenta negar. Se nos primórdios do movimento feminista era o direito ao voto, ao divórcio, à educação e ao trabalho fora da esfera doméstica as principais reivindicações, hoje os movimentos que tem ganhado visibilidade nas redes sociais, por exemplo, protestam veementemente contra a cultura do estupro e do assédio, contra uma linguagem carregada de preconceitos e pressuposições sobre as nossas capacidades, contra as tentativas de cerceamento das liberdades femininas, especificamente no caso do direito ao aborto, dentre outras pautas.

Não conseguiria listar aqui todos as campanhas e coletivos feministas com suas respectivas pautas. Ressaltamos apenas alguns movimentos que tem produzido conjuntamente o que estou denominando “efervescência feminista”, como por exemplo, o Time’sUp, organizado por um coletivo de atrizes, diretoras roteiristas, americanas para combater diversos tipos de abuso de poder – sexual, racial, opressão, falta de representação e qualquer tipo de desigualdade entre homens e mulheres. Esse movimento teve bastante visibilidade na cerimônia do Globo de Ouro em janeiro deste ano quando atrizes cruzaram o tapete vermelho usando preto em apoio às vítimas de abuso.

No Brasil além de slogans contra o assédio como “Não é Não” (comum nas baladas e festas de rua) vimos em 2017 emergir o movimento “Mexeu com uma Mexeu com Todas” protagonizado por atrizes e diretoras da TV Globo em solidariedade à figurinista Susllem Tonani que denunciou o ator José Mayer por assédio sexual. Vemos também diversos coletivos e organizações femininas de base como o Católicas pelo Direito de Decidir, Sempre Viva Organização Feminista, Geledés, Marcha das Vadias, Marcha Mundial de Mulheres etc.Elas lutam contra o racismo, contra o cerceamento da liberdade sexual, o feminicídio, os diversos tipos de violência contra as mulheres, a criminalização do aborto etc.

Ao lado das ações de protestos observa-se também experiências que trazem ainda mais beleza e sensibilidade à luta feminina dando-lhe uma força singular. Refiro-me a projetos, que tem o objetivo de contribuir com o empoderamento econômico e socioafetivo, iniciativas comuns em muitas organizações que atuam na promoção dos direitos das mulheres. A contribuição de Digital Influencers na disseminação de conteúdos que inspiram e acolhem as mulheres em seus sofrimentos comuns, na problematização da linguagem machista enraizada em nosso vocabulário que perpetuando crenças limitantes ajuda a consolidar a desigualdade de gênero etc.

Ressaltamos também o rechaço e a dura crítica às músicas que estimulam e violência contra a mulher, como por exemplo o funk “Só surubinha de leve” que após denúncias das internautas foi retirado das plataformas de música este ano. Por outro lado presenciamos cada vez mais  a propagação de músicas que ressaltam o empoderamento feminino. Canções que partindo da velha guarda, representada por Rita Lee, Elza Soares, Cássia Eller e outras se renova em vozes como as de Beyoncé, Iza, Karol Conká, Anita, Pitty, Mc Sofia e tantas cantoras sertanejas que tem rompido o monopólio masculino do universo sertanejo e levado para as mulheres do Brasil e do mundo mensagens claras de que “um novo dia já está no horizonte”.

Contemplando esse cenário “vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação…” Nesta inspiração de Belchior retroalimentamos o sonho de um mundo mais justo para homens e mulheres livres de estereótipos e mais feministas! De forma simples, feminismo é liberdade, é reconhecimento do princípio da igualdade independente do sexo, é solidariedade, generosidade, é SORORIDADE, conceito por sinal, muito presente no feminismo que lindamente significa união entre as mulheres, empatia, fraternidade, apoio mútuo e recusa a julgamentos que nos dividem e que só fortalecem preconceitos e crenças machistas que retardam o nosso amanhecer.

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A opção do Vaticano

“A pobreza interpela-nos todos os dias com os seus inúmeros rostos marcados pelo sofrimento, pela marginalização, pela opressão, pela violência, pelas torturas e a prisão, pela guerra, pela privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e pelo analfabetismo, pela emergência sanitária e pela falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e pela escravidão, pelo exílio e a miséria, pela migração forçada”.

Essas palavras fazem parte da mensagem proferida pelo Papa, ao instituir o “Dia Mundial dos Pobres”, celebrado em novembro passado em Roma. Podem ser vistas como representativas da agenda que Francisco vem adotando desde que assumiu a liderança da Igreja Católica em 2013. De lá para cá, a começar pela escolha do nome, seus discursos têm evidenciado uma perspectiva pastoral atenta às grandes questões que afligem a humanidade na contemporaneidade.

Na concepção do papa, interpelada por todas essas questões que afetam frontalmente a dignidade da vida humana, a Igreja não deve omitir-se assumindo uma postura de isolamento social, alheia aos problemas do mundo. No entanto, mesmo perante os apelos da realidade social e os contundentes discursos do pontífice, o que se nota, especificamente no Brasil, é uma Igreja quase apática frente aos graves problemas sociais que sacodem o país. Ao compararmos a atuação da Igreja na atualidade e o seu protagonismo a algumas décadas, por exemplo, podemos concluir que não há exageros nesta afirmação.

Mas se de um lado, temos uma Igreja fechada em si mesma e que parece cochilar diante das dores do mundo, temos do outro, uma Igreja (curiosamente a sua hierarquia em certa medida) que tem sinalizado preocupação com o mandamento cristão do amor ao próximo e o princípio da opção preferencial pelos pobres, proclamado, pela Igreja da América Latina desde o final da década de 1960. A Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB), organismo da Igreja Católica que congrega os bispos brasileiros e, o Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), organismo que congrega e representa todo o episcopado responsável pela ação pastoral da Igreja Católica na América Latina vem juntamente com outros setores da Igreja orientando e convocando os seus fiéis à uma postura mais ativa na sociedade.

Diante do conturbado cenário político brasileiro, marcado, sobretudo pela corrupção e pela perda de direitos fundamentais das classes populares, a CNBB tem se posicionado criticamente sobre questões sociais importantes como: o processo de impeachment de Dilma Rousseff; a emenda constitucional que limita os gastos públicos com saúde, educação, infraestrutura e outros setores; a reforma trabalhista; a redução da maioridade penal; a reforma da previdência; a portaria do Ministério do Trabalho, que alterou as regras para classificação e combate ao trabalho escravo etc.

No contexto da América Latina, o CELAM anunciou recentemente o Congresso 50 Anos de Medellín a ser realizado em 2018.  O evento pretende comemorar e ao mesmo tempo projetar a mensagem da conferência ocorrida a 50 anos atrás na cidade de Medellín na Colômbia, que embasada em uma teologia voltada para a libertação dos pobres e oprimidos teve como princípio a “opção preferencial pelos pobres”. Ao convocar o Congresso seus organizadores destacam que “em um contexto internacional particularmente agitado, com manifestações de todos os tipos pedindo um mundo mais livre e justo, o CELAM decidiu comprometer-se entre outras opções, com a causa dos setores populares da América Latina através da ‘opção preferencial pelos pobres’.”

Analisando tal quadro, percebe-se que apesar do imperativo da opção preferencial pelos pobres (que teve o seu berço na Conferência de Medellín em 1968) assumido pelo Papa Francisco e por outras estruturas hierárquicas da Igreja com perspectivas mais progressistas, existe certa distância entre os discursos provenientes dessas instâncias e a prática social da base católica. Parece não estar havendo uma influência capaz de arrebanhar os seus fiéis no sentido de provocar maior consciência política, solidariedade e engajamento na transformação da sociedade, marcada pela pobreza, pela exclusão e injustiça social.

Tal inércia teria a ver com resquícios de uma igreja conservadora voltada para dentro e centrada apenas em seus rituais? Ou será que os valores do capitalismo, marcado pela supremacia do lucro, do individualismo e do desrespeito à vida tem sido mais potente se sobrepondo aos princípios do cristianismo? Em qualquer uma das hipóteses, a Igreja, sem dúvida, ainda tem um longo caminho pela frente.

Quitéria Costa é pedagoga professora universitária e da educação básica

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