Coração nos olhos

Certa vez uma amiga minha me disse que eu tenho o coração nos olhos. Aliás, volta e meia ela diz isso… Renata me presenteia com esse elogio, dos que eu mais gosto de ouvir, por conta da minha tendência em olhar os detalhes das coisas com poesia… Pela minha mania em ver o lado bom das situações. Já me perguntei algumas vezes se eu não sofria da chamada “Síndrome de Pollyana”, referindo-se àquela menina que habita um clássico da literatura infanto-juvenil do século XX. A primeira vez que ouvi falar sobre ela foi através de minha mãe que leu o livro com seu nome e me indicou um filme baseado nesse conto que ia passar na Sessão da Tarde. Corri para assistir e o que vi me chamou especial atenção: Uma menina que, mesmo em meio a tanto sofrimento que sua condição de órfã lhe trazia, brincava do “jogo do contente”, que consistia em ver o lado positivo de tudo.

No meu primeiro contato com o clássico fiquei contagiada e motivada a fazer seu jogo, afinal de contas, eu fazia parte do público alvo da história, como eu disse, o infanto-juvenil, e dele fazem parte esses seres sociais cheios de pureza e sonhos que são as crianças. Mais tarde, novamente, tive contato com esse clássico, já despida daquele olhar puro e onírico da infância e contaminada pela seriedade e excessos de verdade do mundo adulto… Nesse segundo contato com a menina que via o mundo cor-de-rosa, me deparei com as críticas em torno daqueles que vêm a vida sob essa ótica de otimismo e resiliência, assim como a menina do clássico. Nessas críticas, tais pessoas são vistas como quem “foge da realidade” e enxerga o mundo com um olhar ingênuo e desprovido de senso crítico. A menina que tanto me inspirou na infância, era agora ridicularizada por seu otimismo e entusiasmo com a vida…

Numa certa ocasião enquanto eu, meu marido e um casal de amigos andávamos numa rua dessas sem calçamento eu comentei com Milena, a mulher do casal, sobre a lindeza de uns matinhos floridos que ali estavam… Antes disso tinha comentado sobre o fato de meu marido ser meio ranzinza em relação a muitas coisas e sobre suas reclamações vãs que não mudam os fatos dos quais reclama e , com isso, torna o ar, por vezes, meios pesado, desnecessariamente pesado. Ela concordou comigo sobre os lindos matinhos em flor que resistiam ali beirando as calçadas apesar do pisões dos transeuntes e do descaso da sorte. Enquanto comentávamos sobre isso meu marido ranzinza e tão amado soltou, sem nos ouvir “E esses matos chatos que sujam a rua toda? Que descaso das autoridades…” Etc e tal. Nós duas nos entreolhamos e demos risada daquela reclamação vazia de funcionalidade, nos lembramos da conversa anterior sobre essa característica dele e não demos continuidade à nossa conversa e tão pouco o apoiamos na sua reclamação. O papo morreu ali, mas nesse instante nasceu em mim uma certeza: Que prefiro mesmo é ver a beleza das coisas do que me lamentar por aquilo que não vou resolver, seja por não poder ou por não me mobilizar para tanto. Claro que as autoridades devem se preocupar com a limpeza e organização das ruas e claro que naquele sábado em que andávamos ali não queríamos falar sobre isso… Mesmo porque eram só matinhos, não tinha lixo, eles não eram sujeira… Só cresciam naquele lugar porque a rua não era pavimentada (um problema tão comum a tantas outras ruas).

Então eu aqui, da singeleza dos meus escritos, quero registrar a minha crença de que essa “Síndrome de Pollyana” não existe. É uma invenção de uma sociedade que quer nos “despoetizar”. Quero defender que as pessoas que, por ventura, desejam fugir de realidades tristes que assolam suas vidas e preferem viver de sonhos e fantasias têm todo meu respeito. Afirmo ainda que, mesmo as respeitando, não sou dessas pessoas… Sou alguém que procura ver o lado bom das coisas, sem me esquecer de refletir sobre o outro lado da moeda… Sem ter medo de mudar de opinião e sem medo de lutar por mudanças quando de fato necessárias. Prefiro acreditar que sou adepta da teoria de Manoel de Barros. Batizada nesse momento por mim, essa teoria defende a ideia de se encantar pelas coisas “desimportantes” desse mundo e tem como uma de suas premissas “presar mais passarinhos que aviões”. Não se trata de um olhar meramente ingênuo e bobo em relação às coisas. Trata-se de ter respeito e paciência em relação à vida…  Trata-se de gratidão à Deus. É sobre ter o coração nos olhos. E sobre meu marido, ouso dizer que ele está se contagiando pela teoria do poeta das “ignorãnças” pois, um dias desses, me chegou assim sem mais nem menos e disse, sorrindo, que se fizesse sol iríamos à praia e caso chovesse iríamos também, pois quando estamos juntos (eu, nosso filho e ele) qualquer lugar fica bom.

Lívia Maria é mãe de Antônio, pedagoga e professora de educação infantil.

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