Não me dê flores!

Lívia Maria Extremus21
Lívia Maria Extremus21

Não me dê flores! Veja as minhas lutas, escute as tentativas de silenciamento da minha expressão feminina. Mire nas ervas daninhas que impedem que eu floresça, que eu espalhe o meu perfume, o meu pólen, as minhas cores e beleza pelos jardins do mundo.

No meu amanhecer, deixe-me brincar com os brinquedos que desejo, me vestir com as cores que eu escolher sem tentar me encaixar em estereótipos pré-concebidos sobre o que é ser uma menina. Não suponha que não consigo ou não possa fazer certas coisas usando o envelhecido argumento “isso não coisa de menina”. Não pode minha autenticidade não castre minhas potencialidades!

Com o meu traje adulta, mato muitos leões por dia, contribuo no sustento do lar, sou chefe de família, acumulo múltiplas jornadas… mãe, esposa, dona de casa, estudante, trabalhadora… Coloco o pão em casa, mas preciso também fazer o café, colocar e tirar a mesa, cuidar das louças… Invisivelmente estou a me empenhar financeira e afetivamente com um lar, que tem como chefe uma única pessoa, que não sou eu e que muitas vezes é o meu próprio algoz. [Sim a violência doméstica persiste, e em muitos lares eu sou a primeira vítima!]

Não me dê flores! Escute meu cansaço, meus pés cansados das múltiplas jornadas que enfrento fora e dentro de casa… Escute meus lamentos… Minhas risadas também carecem ser escutadas com respeito e, porque não, com alegria! Escute quando eu me calo… Fui criada para me calar, para conceder… Mas isso não me compraz… Tenho muito dentro de mim, muito que dizer… Abusos psicológicos velados calam minha autoestima, minha alegria, meus sonhos…

Nos espaços de poder e decisão sou sub-representada. Somos minoria na política, mesmo sendo mais da metade da humanidade. No trabalho travamos todos os dias lutas invisíveis aos olhos de muitos. Quando exercemos funções culturalmente destinadas aos homens temos nossas capacidades sarcasticamente questionadas. Exercemos a mesma função e em muitos casos ganhamos menos que eles. [Sim, os salários das mulheres são comprovadamente ainda inferiores aos dos homens. Algo sabido, mas convenientemente ignorado pela grande maioria…]

Não me dê flores! Me deixe exalar meus odores do suor da minha luta, do perfume que uso para me festejar, para festejar a vida! Me deixe com minhas cores todas… Se me pinto, se me lavo… Se me adorno, se me desnudo… Tudo isso sou eu!  Veja meu corpo… é a minha casa e nela estão registrados os meus gostos, meus valores. Nela entra quem eu quero, quem convido, quem me convém e quando me convém. E que fique claro: Assédios e estupros não acontecem porque eu estava onde não “devia” vestindo o que não era “conveniente”. Não coloque sobre os meus ombros essa culpa. [As taxas diárias desta violência aterrorizante são alarmantes!] Portanto, não me dê flores, me dê liberdade de ser quem sou, ir e vir em segurança e respeito onde os meus pés quiserem me levar!

A minha condição de mulher tem sido um risco para minha própria existência. Posso morrer no auge da minha juventude, vítima daqueles que me tratam como objeto e me subjugam exercendo controle sobre a minha vida e morte para simplesmente satisfazer os desejos de uma mente doentia e criminosa. [O Brasil está entre os países com o maior índice de feminicídios!]  Portanto, não me dê flores, deixe-me viver!

 

Quitéria Costa Extremus21
Quitéria Costa - Colunista Extremus21

Não me dê flores! Olhe por dentro… Compreenda que para dizer tudo que hoje eu digo e para viver o que vivo foi preciso muita luta! Luta de mulheres que estiveram aqui em outros tempos. Tempos mais difíceis que este… Ainda não disse tudo, não disse a que vim… Coisas, pessoas, ideias ainda tentam me deter… Preciso me desconstruir da ideia de submissão, de silêncio, de incapacidade… Ainda me vejo refém de expectativas culturais e sociais sobre a forma como devo me comportar, como devo exercer minha maternidade, como devo me vestir, onde devo ir… Isso me castra, me violenta…

Não me dê flores! A violência que sofro cotidianamente não pode ser redimida com um buquê de rosas, com um dia de beleza ou com palavras elogiosas que dizem que somos “doces”, “fortes”, “especiais”, mas que no dia seguinte se transformam em poeira de purpurina solta no ar…

Não me dê flores! Não hoje…Neste dia sagrado para a luta das mulheres do mundo inteiro, reverencie conosco a memória daquelas que deram suas vidas naquela fábrica têxtil à milhares de marços atrás. Honremos as lutas diárias de tantas anônimas que continuam bravamente a enfrentar as dores e as delícias de ser ter nascido Maria.

Ajude-nos a enfrentar a despolitização e apropriação desta data pela lógica capitalista e machista que tentam com discursos superficiais e falaciosos descaracterizam as nossas pautas.

Me dê a sua mão, reconheça e valorize a nossa luta, não hoje apenas! Deixe-me ser quem sou todos os dias do ano… E isso não é um pedido de permissão. É um pedido de respeito e reconhecimento de igualdade!

Comentários

Ir ao topo da página