O caso do carrinho rosa

Gosto de defender a diferença entre os presentes dados e os presentes sidos. Os dados são os bens materiais, as prendas, os mimos, gestos de carinho… Mas o mais importante são os presentes sidos, a presença, o colo, a mão estendida. Os presentes dados correm o risco de serem usados para simples cumprimento de protocolo: Aniversários, dia dos namorados, dia disso e daquilo… Os sidos não têm hora nem lugar, acontecem. Gosto dos dois, mas prefiro os sidos. Vovô Gió é desses presentes sidos na vida de Antônio. Volta e meia ele nos surpreende com suas visitas relâmpagos, de quem “estava passando por aqui e resolveu entrar”. Suas chegadas são sempre festejadas pelo netinho que corre para seus braços imitando um grunhido que já virou brincadeira entre os dois: “Vovô Gió faz ‘AGRRR’”. O neto e o avô compartilham gostos em comum, entre eles o amor por bananas. Este, sempre que o neto está em sua casa faz questão de comprar uma penca delas e o convida a comer também. Já aconteceu dele trazer a fruta para nossa casa, como presente. Outro presente fofo e muito bem pensado que ele resolveu trazer esses dias foi um saco enorme de biscoito “avoador” bem fresquinho (O preferido do menino). Esses presentes dados revelam um carinho especial, pois não têm hora nem data para acontecer, assim como os sidos. Ele vê algo que lembrou o neto, algo que era importante para ele e resolve trazer como prenda. Claro que a gente adora!

Aconteceu que numa manhã de sábado vovô veio mais uma vez fazer compras pelo centro de Teixeira. Compra daqui, compra dali pensou: “Vou levar um carrinho de presente para Antônio.” Bem, ele não me contou essa parte do caso, sou eu quem suponho (rs). A parte do caso que eu presenciei foi um buzinar frenético que anunciava sua chegada, o menino correndo já sabendo quem seria e o senhor entrando com uma sacola grande nas mãos dizendo que é para o “menino de vovô”. Antônio sorriu meio sem entender, ele ainda não é muito ligado a presentes dados… Mas adora caixas. Ele disse: “Olha, é uma caixa, mamãe”. Eu afirmei que sim e o ajudei a abrir. De acordo íamos abrindo, fui percebendo que se tratava de um presente diferente de todos que ele tinha ganhado até então. Uma caixa rosa escrito “Car girl power”… Vovô Gió não sabe inglês, eu também não… Mas sei que Girls quer dizer “garota” e diante da expressão e da cor da caixa vi que se tratava de um “carro de menina”. Ele sorria de contentamento enquanto Antônio abria o presente. O menino, que tem uma memória de elefante e conhece todas as cores disse: “Carro rosa”. O avô olhou surpreso e falou: “É branco vovô, tem só uma parte rosa…” E eu confirmei que era isso mesmo, branco com detalhe rosa… Não fez diferença, Antônio acha linda a cor rosa, acha linda a cor branca, ama as cores e amou o carrinho… Correu com ele para o escorregador, ou pista com rampa nesse momento, e começou a brincar com o novo brinquedo. Minutos depois, enquanto eu tomava um café com o sogro, o pai do menino chegou e logo perguntou: “Quem deu esse carro rosa pra simininu, mãe?” O avô voltou a se defender: “É branco, gente… O carro é branco..” E eu disse: “É branco, amor… Seu pai que trouxe de presente e ele amou”. A essa altura percebi que todos perceberam o “equívoco”, menos a criança, que não estava nem aí para esse negócio de “cor de menino” e “cor de menina”, muito menos “brinquedo de menino” e “brinquedo de menina” pois, ele sim, sabe que isso não tem o menor cabimento… O maior interessado, o dono do presente, brincou bastante com a prenda. Mais tarde, quando vovô foi embora, George disse: “Nega, vamos dar esse carrinho de presente para Maria Sophia”. A menina é nossa sobrinha de coração, mas não, eu não concordei em transferir o presente para ela. Ele argumentou: “Mas pai se enganou, ele não reparou que o carro era de menina, etc etc…” Eu: “O carro não é de menina, é de um menino, Antônio o nome dele. Foi dado com muito amor e não vamos tirá-lo daqui.” Ele acabou concordando… No entanto disse: “Se o bebê que estamos esperando for menina dá pra ela brincar então.” Eu não falei mais nada, mas é claro que ela ou ele poderá brincar com o carrinho e com qualquer outro brinquedo do irmão… Brinquedo não tem sexo. Algumas pessoas que vieram em casa logo depois que o carrinho chegou, já estranharam a presença dele aqui entre os brinquedos e eu tenho um grande carinho em contar essa história. Conto não só justificando a presença do brinquedo, mas deixando claro o quanto Antônio é amado pelo avô. É muito comum os avôs, inclusive os de Antônio, darem o dinheiro para as avós ou tias comprarem um presente para os netos… Mas não é comum um homem de setenta anos ir sozinho á repartição de brinquedos de uma loja de departamento e escolher um presente para uma criança… Certamente embebido pela satisfação em poder apresentar o neto, o avô não ficou atendo a cor do brinquedo, só conseguiu imaginar o quanto o menino ficaria feliz em recebe-lo… E ficou! Essas são exceções da vida que me encantam profundamente e me fazem agradecer a Deus pelas pessoas especiais que cercam a vida do nosso simininu. A compra do carro rosa não foi um engano. Engano é achar que brinquedo tem sexo e que sexualidade é definida por cor. O carrinho rosa está como símbolo dessa exceção, dessa iniciativa do avô em dizer ao neto, através de um brinquedo, o quanto ele o ama e o quanto ama fazê-lo feliz.

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