UNIDADE EM PRETO (26/03/2018)

A Segunda-feira começou com todos os professores de preto. Mesmo os que não estavam de preto nas roupas, estavam de preto nos olhos, no coração. Alguns tiraram velhas roupas do armário para tentar externar sua indignação usando a cor do enlutados. A cor do luto, também é a cor do respeito, que podia ser vista em roupas que comumente são evitadas nesses dias tão quentes, de tanto calor que temos vivido… Mas quentes também são os nossos sentimentos, os nossos clamores nesse dia em especial. Dia em que lembramos a colega agredida. Dia em que lembramos a agressão que temos vivido diariamente e que tem partido de muitas direções para a nossa direção. Uma aluna agrediu uma professora a socos e pontapés dentro de uma sala de aula. Uma aluna agrediu a todos nós docentes. Uma aluna foi porta-voz de várias entidades que nos agridem diariamente. Uma nação toda foi agredida… Essa professora, essa escola, essa família, essa aluna foram agredidas. A punição veio antes e veio hoje e, infelizmente, tudo leva a crer, que virá amanhã… Uma punição para todos nós. O que aprendemos diante de tanta punição? A nos acostumar com ela? Não… Não é o que vejo. O que vejo na minha escola, pelas ruas e nas redes sociais é que estamos de preto. Estamos mostrando que estamos de luto, que algo nos marcou tão profundamente que nos tirou um pedaço… Nos tirou a paz, a felicidade em sair cedo para trabalhar… Imagino como a colega, agredida nesse caso emblemático, acordou de manhã para mais um dia de aula. Que gosto estava em sua boca? Que sentimentos trazia dentro de si? Era preta a sua roupa? Era preta a sua angústia? Talvez sim… Mas havia um planejamento a executar… Mais uma aula a ser dada… Uma turma de alunos a esperava… A aluna que a agrediu lá estava? Se sim ou se não fisicamente, mas em memória e dor sim… Tenho certeza que sim, pois ela estava também em minha sala, em minha escola, nas escolas todas desse município… Ela está atrás da mesa que assina leis que não nos representam; Ela está em algumas famílias que não mais compreendem nosso papel, tampouco seus próprios papéis; Está também numa parcela da sociedade que nos aponta o dedo como únicos responsáveis pela educação moral dos cidadãos; Ela está em muitos lugares, em muitos rostos, em múltiplos papéis… Ela nos assombra. Ela, não é apenas a M.M. de 13 anos que estava sentada no braço de uma carteira escolar. Ela é muita gente e gente forte. Aliás, toda gente é forte e é por isso que, nós como professores, nós como também parcela da sociedade professores ou não, nós como gente somos fortes também! É por isso que vestimos preto, essa cor que demonstra força! Mais forte que todas as outras cores… Essa cor nobre e nobre também são os nossos motivos para dela nos valermos no nosso manifesto pacífico e doloroso. Somos todos pretos hoje, embora sejamos coloridos… Muitas cores, muitas diferenças entre nós, mas hoje lembramos o que temos em comum: Nossa força, nosso poder de transformação, nossa seriedade e compromisso com o nosso papel de mediadores do conhecimento. Somos uma só cor, uma só voz, um só grito… Que essa unidade nos leve além! Que nos fortaleça! Que dê visibilidade a nossa causa, que deve ser a causa das famílias, dos alunos, da sociedade, dos governantes… Que a unidade seja um imã e que sejam atraídos aqueles que desejam que o direito de todos a uma educação de qualidade seja garantido no papel e na prática, não só pelos professores, mas também pelo estado e pelas famílias. “Unidos, venceremos. Divididos, cairemos.” Alguém assim disse e eu faço dessas minhas palavras.

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