Viola de cego

“Ele tirou a viola dum saco de chita e cuja viola estava toda enfeitada de fita ouvi as moças dizendo: Grande viola bonita!” Quando li esses dizeres num livreto de cordel, dos vários que meu primo Péricles deixou comigo certa vez, me lembrei de um tocador cego que me abordou num ônibus que ia de Eunápolis à Porto Seguro, há muito tempo atrás. Os versos são do cordelista Firmino Teixeira do Amaral e contam “A peleja do cego Aderaldo com Zé Pretinho”. A viola bonita citada no cordel é a do Zé Pretinho, mas me lembrou a do cego que esteve comigo no ônibus. Infelizmente não houve tempo dele falar seu nome, apenas entrou no transporte, tirou sua bela viola de dentro do saco, tocou uns versos e pediu cachê. Tudo de forma muito rápida, pois foi numa parada de embarque e desembarque de passageiros desse ônibus que tinha pressa em seguir. Reparei muito na sua viola e no saco de estopa com alguns bordados em ponto de cruz… A viola tinha tirinhas coloridas do Senhor do Bonfim amarradas em sua cabeça e imagens de santos em relevo coladas no tampo. O instrumento musical, aparentemente velho e viajado, estava todo adornado e festivo! Em mim ficaram duas impressões: Que os adornos facilitavam a localização do seu dono que tinha deficiência visual e ainda alegrava os olhos dos ouvintes com suas cores e alegorias, além, é claro, do som que produzia. Ainda por cima, esses enfeites traziam à tona as concepções religiosas desse homem, a sua fé… Me produziu grande encantamento. 

Amo enfeites! Amo adornos, bordados, cores, aplicações! Amo símbolos, significados… E gosto de imprimir esse meu gostar nas roupas que visto, no jeito como me enfeito. Adoro trocar ideias de vestimentas com minhas amigas… Sabe aquele dizer que “mulher se arruma para as amigas”? Me representa! Adoro tricotar com as amigas sobre os adereços e trajes que gosto. Futilidade? Não! Entusiasmo e alegria em me enfeitar para a vida! Tenho uma amiga com a qual compartilhamos muitos gostos em comum… Entre eles a arte de me enfeitar. Sim, pra mim é uma arte. Gostamos de quantidade de adereços e gostamos de dar recados através deles. Bijus coloridas, roupas estampadas… Tudo junto e de uma só vez. Retalhos de tecidos, reaproveitamento de peças, bijus com elementos naturais… Artesanato é vida! Ela é artesã eu apreciadora de seus fazeres. A gente gosta de montar looks cheios dessa alegria e cheio de representatividade e eu sugeri que os batizássemos de looks “Viola de cego”. Contei mais ou menos essa história pra ela, que prontamente concordou com essa denominação do nosso estilo pessoal, da nossa “Arte Naif”, nosso jeito auto-didata de fazer moda, uma moda feita por nós e para nós. 

Recentemente me descobri mãe de uma menina… Menina que ainda não chegou, mas daqui da barriga já coleciona faixas floridas para os cabelos, brinco de bolinha, turbantes coloridos e colar de âmbar… Consumismo? Não. Vontade de enfeitar essa espera deliciosa! Mais do que enfeitar, representar através do que visto, a mim e a ela, coisas que aprecio… Artes feitas à mão; Retalhos cortados e costurados pela avó; Flores de tecido feitas por uma tia avó; Crochês por outra; Casacos tricotados pela Bisa… Cores das mais diversas, camisetas com belas frases… A força, a doçura, a feminilidade… Coisas que muito admiro. Claro que quando começar a dizer o que pensa, ela pode não gostar das mesmas roupas e adornos que eu… Aí vou ouvi-la com atenção e contemplar o nascimento do seu próprio jeito de dar o recado… Não vou me frustrar por isso (pelo menos, espero que não rs)… Vou admirá-la, assim como admiro várias outras mulheres que têm outra postura sobre seus jeitos de se arrumar. Minha mãe, por exemplo, mulher forte e frágil num equilíbrio constante entre essas duas características e numa constância linda de ser e estar entre nós e nela mesma, ama se vestir com as roupas que ela mesma faz e quase todas são do mesmíssimo modelo. Mudam apenas as estampas, embora todas se pareçam… Seus batons e esmaltes são sempre nos mesmos tons… Seu estilo é muito seu e eu acho o máximo! 

Se enfeitar é mais do que mera casca fútil… Se enfeitar é dar recados, é contar sobre escolhas e preferências. Quero ilustrar essa conversa com um quadro lindíssimo de uma artista que me fascina: Frida Kahlo. Quem já viu fotos de alguns dos seus quadros, logo se dá conta de que Frida fazia muitos autorretratos…. E é verdade! A maioria de suas telas são de composições desse tipo, no entanto o quadro a que me refiro não tem sua imagem pintada ali, mas a imagem de um dos seus vestidos. O nome da tela é “Meu vestido pendurado ali.” E traz um dos seus trajes, típicos das mulheres Zapotecas. Esse vestido está pendurado numa fita que pende entre elementos que remetem a cultura mexicana e norte-americana, bem como a tensão entre esses dois mundos. Um quadro que traz uma importante reflexão sobre aspectos políticos e sociais da época e que ecoam ainda hoje sobre esses povos. Pendurado em meio a todas as referências do quadro está o vestido tehuano, tão comumente usado por Frida como forma de lembrar desses povos que estão numa visão periférica do mundo… Ela vestia-se com importante consciência à essas referências culturais que remetem à liberdade e independência econômica feminina… Mas que, apesar disso, têm seus modos de vida colocados numa posição de  marginalidade. Suas roupas e adornos trazem a resistência de uma cultura que tem suas vozes silenciadas e a pintora sabia, lindamente, comunicar suas preferências políticas e culturais através do seu jeito de se vestir.  Com toda ousadia que me cabe, classificaria Frida como um grande expoente do estilo “viola de cego” (rs) uma grande inspiração pra mim. 

“Viola de cego” é representatividade, não apropriação cultural… É representação de elementos que valorizamos, somados a um pouco de vaidade saudável, com pitadas de exageros de cores… Com muitos toques pessoais… É reutilização e diversão!  É charme feminino para quem aprecia… Para quem não aprecia pode ser banalidade… Não se pode agradar a todos, não é mesmo?! O fato é que agora terei uma violinha para enfeitar, tal qual aquele cego do ônibus enfeitou a dele… A enfeitarei enquanto puder e enquanto ela quiser, mas se quer saber… Ficarei muito feliz se ela quiser, quando responder por si, dividir comigo essa alegria em me enfeitar para desfilar a vida por aí… No estilo Catarina de ser… Assim como a mamãe aqui tem o dela, a vovó e a “tia” Frida tb.  

Esses são fragmentos de pensamentos de uma mulher que ama se arrumar e que ama apreciar outras mulheres, amigas ou não, entusiasmadas em se mostrarem arrumadas também , talvez por isso não vê a hora de ver a mulher que espera chegar para esse time. Time de gente que se mostra como é e como gosta de ser. Catarina, venha e se mostre, minha filha! 

Comentários

Ir ao topo da página