A opção do Vaticano

“A pobreza interpela-nos todos os dias com os seus inúmeros rostos marcados pelo sofrimento, pela marginalização, pela opressão, pela violência, pelas torturas e a prisão, pela guerra, pela privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e pelo analfabetismo, pela emergência sanitária e pela falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e pela escravidão, pelo exílio e a miséria, pela migração forçada”.

Essas palavras fazem parte da mensagem proferida pelo Papa, ao instituir o “Dia Mundial dos Pobres”, celebrado em novembro passado em Roma. Podem ser vistas como representativas da agenda que Francisco vem adotando desde que assumiu a liderança da Igreja Católica em 2013. De lá para cá, a começar pela escolha do nome, seus discursos têm evidenciado uma perspectiva pastoral atenta às grandes questões que afligem a humanidade na contemporaneidade.

Na concepção do papa, interpelada por todas essas questões que afetam frontalmente a dignidade da vida humana, a Igreja não deve omitir-se assumindo uma postura de isolamento social, alheia aos problemas do mundo. No entanto, mesmo perante os apelos da realidade social e os contundentes discursos do pontífice, o que se nota, especificamente no Brasil, é uma Igreja quase apática frente aos graves problemas sociais que sacodem o país. Ao compararmos a atuação da Igreja na atualidade e o seu protagonismo a algumas décadas, por exemplo, podemos concluir que não há exageros nesta afirmação.

Mas se de um lado, temos uma Igreja fechada em si mesma e que parece cochilar diante das dores do mundo, temos do outro, uma Igreja (curiosamente a sua hierarquia em certa medida) que tem sinalizado preocupação com o mandamento cristão do amor ao próximo e o princípio da opção preferencial pelos pobres, proclamado, pela Igreja da América Latina desde o final da década de 1960. A Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB), organismo da Igreja Católica que congrega os bispos brasileiros e, o Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), organismo que congrega e representa todo o episcopado responsável pela ação pastoral da Igreja Católica na América Latina vem juntamente com outros setores da Igreja orientando e convocando os seus fiéis à uma postura mais ativa na sociedade.

Diante do conturbado cenário político brasileiro, marcado, sobretudo pela corrupção e pela perda de direitos fundamentais das classes populares, a CNBB tem se posicionado criticamente sobre questões sociais importantes como: o processo de impeachment de Dilma Rousseff; a emenda constitucional que limita os gastos públicos com saúde, educação, infraestrutura e outros setores; a reforma trabalhista; a redução da maioridade penal; a reforma da previdência; a portaria do Ministério do Trabalho, que alterou as regras para classificação e combate ao trabalho escravo etc.

No contexto da América Latina, o CELAM anunciou recentemente o Congresso 50 Anos de Medellín a ser realizado em 2018.  O evento pretende comemorar e ao mesmo tempo projetar a mensagem da conferência ocorrida a 50 anos atrás na cidade de Medellín na Colômbia, que embasada em uma teologia voltada para a libertação dos pobres e oprimidos teve como princípio a “opção preferencial pelos pobres”. Ao convocar o Congresso seus organizadores destacam que “em um contexto internacional particularmente agitado, com manifestações de todos os tipos pedindo um mundo mais livre e justo, o CELAM decidiu comprometer-se entre outras opções, com a causa dos setores populares da América Latina através da ‘opção preferencial pelos pobres’.”

Analisando tal quadro, percebe-se que apesar do imperativo da opção preferencial pelos pobres (que teve o seu berço na Conferência de Medellín em 1968) assumido pelo Papa Francisco e por outras estruturas hierárquicas da Igreja com perspectivas mais progressistas, existe certa distância entre os discursos provenientes dessas instâncias e a prática social da base católica. Parece não estar havendo uma influência capaz de arrebanhar os seus fiéis no sentido de provocar maior consciência política, solidariedade e engajamento na transformação da sociedade, marcada pela pobreza, pela exclusão e injustiça social.

Tal inércia teria a ver com resquícios de uma igreja conservadora voltada para dentro e centrada apenas em seus rituais? Ou será que os valores do capitalismo, marcado pela supremacia do lucro, do individualismo e do desrespeito à vida tem sido mais potente se sobrepondo aos princípios do cristianismo? Em qualquer uma das hipóteses, a Igreja, sem dúvida, ainda tem um longo caminho pela frente.

Quitéria Costa é pedagoga professora universitária e da educação básica

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