As perguntas pedem espaço

Os assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes no Rio de Janeiro na última semana, surpreenderam e geraram grande comoção não apenas nos familiares, amigos e nos mais de 46 mil eleitores a quem Marielle representava na Câmara de Vereadores do Rio. Provocaram indignação e pesar também em milhares de pessoas que se identificam com as lutas da vereadora e não se conformam com a violência estrutural que dizima milhões de pessoas no Brasil, sobretudo entre as populações mais pobres e marginalizadas da sociedade.

Recebendo apoio de lideranças políticas e religiosas, organizações de classe, artistas, intelectuais, representantes de distintos movimentos sociais e de organizações internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) o caso alcançou grande repercussão em todo o Brasil e em diferentes países pelo mundo. Em diversos lugares foram organizados protestos que expressaram emoções, denúncia e, sobretudo a força da união daqueles/as que lutam por um justo e digno viver para todos/as.

Se de um lado, acompanhamos tantas expressões de solidariedade e compaixão contemplando a face bela e terna da humanidade, de outro presenciamos um verdadeiro show de horrores em relação a Marielle, especificamente.  As tentativas de assassinar também a sua honra utilizando-se das fake news, dos comentários maldosos, do discurso de ódio e intolerância propagados pelas redes sociais, evidenciaram a face violenta, espinhosa e torpe de seres humanos que nos fazem acreditar que a crise civilizatória que temos vivido é mais aguda do que imaginamos.

Marielle carregava em si todos os “estigmas” que despertam a intolerância, o desrespeito e o ódio em muitos: era uma ativista dos direitos humanos, mulher negra, lésbica e favelada. Aqueles/as que ainda não conseguiram reconhecer as gritantes desigualdades econômicas, de raça, de gênero e outras tantas, como causas da violência tendem à culpabilização das vítimas e perante um caso emblemático como este, vociferam tentando deslegitimar as lutas por igualdade de direitos.

Era contra todas essas desigualdades que a “Cria da Maré” (assim ela se definia) protestava! Era a favor dos “deserdados da terra” e pela igualdade de direitos que ela bravamente lutava. Sofreu na própria pele tudo que denunciava, contrariou todos condicionamentos impostos pela sua condição social, racial e de gênero, mas não viveu só para si. Enriqueceu o seu viver fazendo da sua vida uma entrega solidária, se colocando como porta-voz de uma maioria curiosamente chamada de minorias.

O que a vida e o contexto em que se dá a morte de Marielle Franco nos leva a refletir? Qual a sua simbologia? Qual o legado da sua memória para as mulheres, para os negros, para os favelados, para as vítimas da violência e para os ativistas dos direitos humanos?

Não tenho a pretensão de uma análise sobre o caso (muitos já fizeram isso brilhantemente) e nem de apresentar respostas a questões tão complexas (isso também nem me seria possível). O que faço é um convite aflito para que lancemos mais perguntas… Como sabiamente diz o escritor português José Saramago “tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas?”. Não acredito que possamos encontrar respostas para problemas tão difíceis sem nos indagarmos profundamente. Penso que o tempo em que investirmos elaborando boas perguntas será salutar em nos proporcionar o encontro com as respostas que esperamos do mundo.

Reforçando a pedagogia da pergunta, Jostein Gaarder também ensina sobre o valor da interrogação. Segundo o autor “A resposta é sempre um trecho do caminho que está atrás de você. Só a pergunta pode apontar o caminho para frente”. Portanto para colocarmos luz nesse caminho turvo é importante saber: quem? Como foi tramada e o por quê da morte de Marielle? Mas é também fundamental formularmos perguntas que nos leve até as profundidades do solo que produziu o seu extermínio e que tem produzido o de tantos milhões, vítimas da barbárie que tem assolado não apenas o Rio de Janeiro, mas centenas de cidades brasileiras, inclusive a nossa.

É necessário nos indagarmos também sobre as raízes de tanto ódio e intolerância que tem marcado a convivência humana. Por que humanos contra direitos de seus próprios semelhantes? Por onde andarão a racionalidade e a ética daqueles/as que embora não disparem o gatilho das armas, disparam o discurso da intolerância às diferenças, da violência simbólica e da mentira que trucida a reputação das pessoas que não comungam dos mesmos princípios e valores que eles/as.

Onde andará a habilidade de interpretação e a coerência daqueles/as que se apresentam como cristãos, mas acreditam na superação da violência com a produção de mais violência, legitimam o derramamento de sangue e a propagação da insana máxima “bandido bom é bandido morto?” propondo com ironia o silenciamento dos ativistas pelos direitos humanos?

O que pensar sobre a naturalização das desigualdades sociais que se revelam numa absurda concentração de renda nas mãos de um pequeno grupo? Quem rumos tomar perante um Estado com uma estrutura corrompida e rendido aos interesses do capital cumprindo o papel imoral de distribuir migalhas aos mais pobres e excluídos do sistema?

Imersos neste cenário que tentam nos limitar, ameaçam as nossas esperanças nos roubando também a paz de espírito, resta a quem não milita nos campos da violência, da intolerância e do desrespeito dois caminhos:  o da omissão ou o caminho de um renovado contrato com a ética, com o respeito à vida, com a gentileza, com a justiça e a igualdade social. Nesse último, a presença e o testemunho de Marielle certamente nos acompanharão e nos inspirarão.

Quitéria Costa é pedagoga, mestra em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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