Hei, você é Feminista?
(a pergunta é também para os homens)

Apesar dos avanços alcançados com a luta do movimento feminista no decorrer da sua história, as desigualdades de gênero persistem entre as principais causas de sofrimento e exclusão de milhares de mulheres no mundo inteiro. Em uma rápida pesquisa pela internet vamos constatar em  muitos contextos sociais que ser mulher ainda significa: estar entre os mais vulneráveis à violência doméstica e em muitas situações até à morte, (os índices de feminicídio são altíssimos no Brasil); sofrer violência sexual e ser culpada por isso; encarar dupla jornada de trabalho assumindo sozinha as tarefas domésticas e de cuidados com os filhos; ser sub-representada em espaços de poder na sociedade; ter suas capacidades questionadas ao aspirar determinados papéis sociais;  ter a vida sexual regulada pela sociedade; ter remuneração inferior à dos homens atuando na mesma função; ter as suas pautas e estratégias de luta rotuladas como “mimi de feministas”.

Mas o que significa ser feminista hoje? Você se considera uma/um feminista? Considero essa questão muito importante, pois ainda é comum, pelo menos no meu círculo de convivência, ouvir de homens e até mesmo de mulheres frases que interpreto como pejorativas e equivocadas sobre o feminismo e sobre o que é ser feminista.

Certa vez, participando de um evento sobre violência contra a mulher ouvi de uma colega (profissional liberal que ocupa um cargo de poder na sociedade), o famoso jargão ainda reproduzido por muitas mulheres, infelizmente: “malditas feministas que foram queimar sutiãs para que a gente tivesse hoje que trabalhar fora e ainda assumir as tarefas domésticas… Como gostaria de estar apenas em casa!” No momento apenas disse a ela que eu não era especialista no assunto (e continuo não sendo, minha visão sobre o assunto vem do meu lugar de fala enquanto mulher), mas que não tinha conhecimento de nenhum movimento feminista que tivesse lutado para que TODAS as mulheres fossem OBRIGADAS a trabalharem fora de casa abandonando os afazeres domésticos e acumulando jornadas de trabalho.

Não pude prolongar a discussão com a minha colega naquele momento, mas fiquei refletindo sobre como reconhecer a injustiça de gênero e lutar por igualdade era algo complexo. Compreendi que entender o feminismo, para além dos seus limites e dos estereótipos (feministas são mal amadas, não gostam de homens, são feias e desleixadas com a aparência, são mães desnaturadas etc.) que se constroem sobre ele é fundamental!

“Todos nós devemos ser feministas”! Este é o título de uma palestra da escritora nigeriana, Chimamanda Adichie para o TeDx Euston. O seu discurso teve trechos utilizados na música “Flawless” da cantora Beyoncé e posteriormente foi adaptado para o livro “Sejamos Todos Feministas” lançado pela Companhia das Letras. Para Chimamanda “feminista é um homem ou mulher que acredita na igualdade econômica, social e política dos sexos, que diz: sim, há um problema com os gêneros hoje e nós devemos consertar isso! Devemos fazer melhor”. É nessa perspectiva de feminismo que me aventuro na tentativa de discutir brevemente sobre a luta pela igualdade de gênero no cenário atual.

Observo, sobretudo por meio das redes sociais, certa “efervescência feminista” que de forma incisiva e renovada persiste no ideal de fazer a sociedade reconhecer que nós mulheres temos igualmente valor e capacidade para realizar muitas coisas que a cultura machista e patriarcal tenta negar. Se nos primórdios do movimento feminista era o direito ao voto, ao divórcio, à educação e ao trabalho fora da esfera doméstica as principais reivindicações, hoje os movimentos que tem ganhado visibilidade nas redes sociais, por exemplo, protestam veementemente contra a cultura do estupro e do assédio, contra uma linguagem carregada de preconceitos e pressuposições sobre as nossas capacidades, contra as tentativas de cerceamento das liberdades femininas, especificamente no caso do direito ao aborto, dentre outras pautas.

Não conseguiria listar aqui todos as campanhas e coletivos feministas com suas respectivas pautas. Ressaltamos apenas alguns movimentos que tem produzido conjuntamente o que estou denominando “efervescência feminista”, como por exemplo, o Time’sUp, organizado por um coletivo de atrizes, diretoras roteiristas, americanas para combater diversos tipos de abuso de poder – sexual, racial, opressão, falta de representação e qualquer tipo de desigualdade entre homens e mulheres. Esse movimento teve bastante visibilidade na cerimônia do Globo de Ouro em janeiro deste ano quando atrizes cruzaram o tapete vermelho usando preto em apoio às vítimas de abuso.

No Brasil além de slogans contra o assédio como “Não é Não” (comum nas baladas e festas de rua) vimos em 2017 emergir o movimento “Mexeu com uma Mexeu com Todas” protagonizado por atrizes e diretoras da TV Globo em solidariedade à figurinista Susllem Tonani que denunciou o ator José Mayer por assédio sexual. Vemos também diversos coletivos e organizações femininas de base como o Católicas pelo Direito de Decidir, Sempre Viva Organização Feminista, Geledés, Marcha das Vadias, Marcha Mundial de Mulheres etc.Elas lutam contra o racismo, contra o cerceamento da liberdade sexual, o feminicídio, os diversos tipos de violência contra as mulheres, a criminalização do aborto etc.

Ao lado das ações de protestos observa-se também experiências que trazem ainda mais beleza e sensibilidade à luta feminina dando-lhe uma força singular. Refiro-me a projetos, que tem o objetivo de contribuir com o empoderamento econômico e socioafetivo, iniciativas comuns em muitas organizações que atuam na promoção dos direitos das mulheres. A contribuição de Digital Influencers na disseminação de conteúdos que inspiram e acolhem as mulheres em seus sofrimentos comuns, na problematização da linguagem machista enraizada em nosso vocabulário que perpetuando crenças limitantes ajuda a consolidar a desigualdade de gênero etc.

Ressaltamos também o rechaço e a dura crítica às músicas que estimulam e violência contra a mulher, como por exemplo o funk “Só surubinha de leve” que após denúncias das internautas foi retirado das plataformas de música este ano. Por outro lado presenciamos cada vez mais  a propagação de músicas que ressaltam o empoderamento feminino. Canções que partindo da velha guarda, representada por Rita Lee, Elza Soares, Cássia Eller e outras se renova em vozes como as de Beyoncé, Iza, Karol Conká, Anita, Pitty, Mc Sofia e tantas cantoras sertanejas que tem rompido o monopólio masculino do universo sertanejo e levado para as mulheres do Brasil e do mundo mensagens claras de que “um novo dia já está no horizonte”.

Contemplando esse cenário “vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação…” Nesta inspiração de Belchior retroalimentamos o sonho de um mundo mais justo para homens e mulheres livres de estereótipos e mais feministas! De forma simples, feminismo é liberdade, é reconhecimento do princípio da igualdade independente do sexo, é solidariedade, generosidade, é SORORIDADE, conceito por sinal, muito presente no feminismo que lindamente significa união entre as mulheres, empatia, fraternidade, apoio mútuo e recusa a julgamentos que nos dividem e que só fortalecem preconceitos e crenças machistas que retardam o nosso amanhecer.

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