Quem é o seu padrão?

A preocupação com a forma do corpo físico sempre esteve presente na vida de homens e mulheres de todos os tempos. Se fizermos um sobrevoo pela história com o foco na questão, vamos notar em cada época a valorização de um determinado tipo físico como padrão estético predominante. Observamos que a preocupação com a forma física é algo que para além dos cuidados com a saúde tem a ver com sentir-se bonito (a), sentir-se aceito (a) socialmente e sentir-se bem encaixado (a) no padrão de beleza estabelecido pela cultura de uma época.

O padrão de beleza vigente na atualidade exige corpos magros, abdomens de tanquinho, músculos definidos, peitos siliconados, celulite zero, bumbum empinado, dentre outros atributos… Para isso, é exigido que frequentemos academias e estabeleçamos constante vigilância sobre a alimentação, buscando os alimentos e/ou estilos alimentares que melhor favoreçam o encaixe no referido padrão e que nos ajude a adentrar no tão desejado mundo fitness.

O apelo para este encaixe é direcionado para homens e mulheres, no entanto, o corpo feminino é o mais cobrado para que se adeque ao molde “fit” pré-estabelecido. As mulheres são geralmente as que tem os seus corpos mais regulados, mais expostos às críticas, sejam por elas mesmas, experimentando um profundo sentimento de inadequação (quantas de nós estamos satisfeitas com os nossos corpos?), sejam pelas amigas, pela família, pelos companheiros e até mesmo por desconhecidos que expõem deliberadamente suas opiniões, tratando o corpo alheio como coisa pública.

Mesmo as mulheres famosas que estão na mídia não escapam desse desagradável desconforto. Tem sido comum assistirmos à ridicularização dos corpos de famosas nas redes sociais que são submetidos à críticas cruéis e desrespeitosas, por mostrarem uma celulite ou estria, por apresentarem uma dobrinha ou um peito natural, por estarem num peso fora do estabelecido pelo padrão (lembrando que muitas magrinhas também sofrem com tudo isso).

Dentre as famosas que já passaram pela experiência no mínimo incômoda de terem os seus corpos patrulhados por geral, relembremos o ocorrido com Bruna Marquezine, criticada nas redes sociais por exibir um peito natural em sua fantasia no último carnaval. Sim, natural! As pessoas se habituaram tanto com a artificialidade dos peitos siliconados que se espantaram ao ver um peito natural… Ou seja, as mulheres devem lutar contra o tempo, contra a lei da gravidade e precisam posar sempre esticadas para que caibam na forma do irreal ideal de beleza propagado.

Somos bombardeadas por imagens de modelos, atrizes e musas fitness que exibem nas revistas e perfis das mídias sociais, corpos esculpidos (muitos alterados por programas de manipulação de imagens) bem distantes dos corpos reais da maioria das mortais. Tal quadro ajuda a alimentar em milhões de mulheres, adolescentes e até mesmo em crianças algo surreal:  a ilusão de que elas é que são imitações mal feitas das fotografias manipuladas que vemos por aí, quando na verdade é justamente o contrário.

Buscando conter esta manipulação de imagens o governo francês no ano passado adotou uma regra determinando, sob pena de multa, que todas as fotografias retocadas publicadas por agências de publicidade informem que se trata de uma imagem manipulada. Esta medida já adotada também em outros países traz uma alerta importante, pois trata a questão como um problema de saúde. A ministra da Saúde da França, Marisol Touraine afirmou na época, que “Expor jovens a imagens normativas e irrealistas leva a uma sensação de autodepreciação e de baixa autoestima que pode afetar comportamentos relacionados à saúde”.

E você? Já parou para refletir sobre essas questões? Já pensou no impacto do “marketing da indústria fitness” e das imagens “photoshopadas” sobre a autoestima e a saúde mental de meninas e mulheres? Para sentir-se bonita(o), sentir-se aceita(o) socialmente é mesmo necessário se amoldar a um padrão estético?  Você acha que a sua beleza cabe num padrão? Quem é o seu padrão?

É fundamental refletir sobre essas questões, pois a maioria de nós sofre cotidianamente as influências e os efeitos da cultura da aparência. Esta cultura, se utilizando do legitimo desejo que todo ser humano possui de sentir-se bonito e aceito produz uma completa inversão de valores fazendo-nos acreditar que a felicidade mora de fato numa determinada configuração corporal.

Apesar de no Brasil não existirem dados muito precisos sobre o número de pessoas com transtornos alimentares, pesquisas apontam cada vez mais correlação entre culto excessivo ao corpo, distorção da imagem corporal e transtornos alimentares. A boa notícia é que atentos à milhares de pessoas que sofrem desses transtornos e embasados em pesquisas sobre esses assuntos tem surgido no Brasil e no mundo movimentos que contestam com veemência o “culto à beleza padronizada” alertando sobre os seus efeitos na saúde mental de milhares de meninas e mulheres.

Campanhas como o “Body Positive” que estimulam a autoaceitação e valorização dos diversos tipos de beleza, blogs como o “Não Sou Exposição” da nutricionista Paola Altheia, canais no You Tube como o “Eu vejo” da jornalista Daiana Garbin são alguns dos inúmeros canais digitais que difundem conteúdos levantando essas bandeiras. São movimentos de vanguarda que lutam pela liberdade da beleza e por mais saúde, ousando romper com uma cultura que uniformiza e desvaloriza a beleza real ao ditar um estereótipo de corpo que apesar de sustentado pelo discurso falacioso da saúde, está na verdade comprometido com os interesses das indústrias que lucram com tudo isso. Vale a pena se informar, vale a pena se inspirar e contribuir com esta mudança. A saúde mental, inclusive de crianças e adolescentes agradece.

P.S: Não há nada de errado em cuidar do corpo e da aparência. Não há aqui qualquer defesa à obesidade, ao sedentarismo ou à uma alimentação sem qualidade. Há sim um convite a uma percepção mais crítica sobre padrões que tentam nos enquadrar, desrespeitam a nossa singularidade, nos oprimem e adoecem.

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