A violência diária, a banalização do luto, o espetáculo da morte e a Caminhada pela Paz

A banalização da morte passa a ser tratada como espetáculo. Foto: Jornal Correio do Brasil

As mortes violentas fazem parte da rotina de Teixeira de Freitas, a 7ª cidade mais violenta no país, de acordo com o Atlas da Violência 2017. Todos os dias, vítimas se transformam em estampas para fotos que circulam pela imprensa, nos aplicativos de celular, redes sociais. Em grupos de WhatsApp, cada cidadão que flagra uma nova morte, assume o papel de “repórter”. Os membros formam a plateia que pede “mais fotos”, “mostra a cara dele”, “onde foi?”. Cada morte é contada: “mais um”, “hoje foram três”, “esse foi o segundo ou o terceiro de hoje?”, perdem a conta.

Tal situação carece de enfrentamento, uma das respostas da sociedade é a Caminhada pela Paz, que será realizada em 24 de março e tem a ambição de não ter um fim nela mesma, mas ser, o marco de um conjunto de ações. Disparada pela Igreja Católica, na pessoa do Bispo da Diocese de Teixeira de Freitas/Caravelas, Dom Jailton Lino,  a iniciativa ganhou adeptos e apoio na Primeira Igreja Batista de Teixeira de Freitas (Pibatef), na Igreja Ortodoxa e em entes ligados à Justiça, Polícia Militar e terceiro setor.

Dom Jailton, em publicação oficial da Diocese,  explica que a Caminhada pela Paz é um projeto com o objetivo de construir a fraternidade e a paz, estimulando ações concretas que expressem o compromisso dos cidadãos teixeirenses. “Por esse motivo, caminharemos para a construção da Paz nos próximos dias, com ações em nosso grupo social, religioso e político, mas, no dia 24 de março, às 9 horas da manhã, nos uniremos todos para fazer uma caminhada pelas ruas de Teixeira. Com o tema: Diga não a violência, abrace a paz”.

O pastor presidente da Pibatef, Oseias Santos, que é um dos membros da comissão organizadora da caminhada, faz uma reflexão sobre o que chama de fenômeno da violência, que “precisa ser visto em toda a sua complexidade para que seja melhor compreendido”.

Ele chama a atenção para o que as pessoas veem, que seria só uma ponta do problema, tal e qual se apresenta um iceberg. “A sociedade tem se assustado com a violência aparente, a chamada violência subjetiva, que é essa facilmente percebida, detectada”. Neste caso, ficam visíveis quem pratica e quem sofre. “No entanto, essa violência subjetiva, começa em um problema ainda maior, que é a violência objetiva, que pode ser a sistêmica, tendo como ponto de partida as condições socioeconômicas, em que as desigualdades agridem o ser, e ainda pode ser simbólica, que é a violência produzida na linguagem”. Comum em grupo sociais, entre conhecidos, familiares.

O Padre Celso Kallarrari da Igreja Ortodoxa Siríaca, o Bispo da Diocese de Teixeira de Freitas/Caravelas, Dom Jailton e o pastor presidente da Pibatef, Oseias Santos. Fotomontagem: Extremus21

No segundo caso, o ato violento ganha força e bases, quando são estabelecidos os preconceitos, fundamentalismos… Ele pede às pessoas mais cuidado na análise, pois ela exige um olhar muito mais amplo, para que se perceba até mesmo o que a própria política pode fazer, em pregações ou omissões, que impulsione a violência.  “A violência simbólica pode nascer de onde se espera a paz, como entre as religiões. Isso precisa de freio”, concluiu.

Sobre essa banalização da morte, que passa a ser tratada como espetáculo, quem comentou foi o Padre Celso Kallarrari da Igreja Ortodoxa Siríaca. Para o religioso, com o advento da modernidade, muitos pensamentos cristãos foram abolidos, a exemplo da preocupação com a morte, porque outras preocupações, tais como a honra, o dinheiro, o poder, ganharam destaque na sociedade contemporânea.

Nesse exercício, ele cita o sociólogo Peter Berger, para quem “a morte do próximo, que era algo parecido com um evento privado e secreto, tornou-se algo corriqueiro, inevitável e comum, descarregado de sentimentos fúnebres”. Assim, segue o padre, o que era, antes, extraordinário, passou a ser, na vida moderna, um acontecimento dentre outros acontecimentos ordinários da vida.

É preciso repensar a postura do cidadão comum. “Em outras palavras, nossa sociedade fez desaparecer o luto, o respeito e a solidariedade com o morto. Daí, a mídia (tanto televisiva, radiofônica e impressa), cada vez mais invasiva e especulativa, busca, insistentemente focar na morte e na violência, visando seu principal objetivo, qual seja, altos índices de audiências. Desse modo, a banalização da morte e o sensacionalismo gritante da mídia, fideliza um público que se diverte, cada vez mais, assistindo ou lendo notícias de assassinatos”.

Como membro organizador da caminhada e religioso, padre Celso se posiciona preocupado com o aumento no índice da criminalidade na cidade, mas otimista diante da união e organização. “De fato, sozinhos não podemos avançar, mas enquanto sociedade organizada é possível”.

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