De príncipe herdeiro a delator, de acusador a presidiário, da cela para casa

A saga de Marcelo Odebrecht, agora de volta ao lar

Após dois anos e meio (30 meses)  preso na carceragem da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, acusado de superfaturar obras para a Petrobras e corromper autoridades, o empresário Marcelo Odebrecht, 49 anos, foi liberado no meio da manhã desta terça-feira, 19, para cumprir prisão domiciliar. Antes, porém, ele passou pela sede da Justiça Federal, em Curitiba, para a colocação da tornozeleira eletrônica. Informações dão conta de que ainda hoje ele chega em São Paulo, onde tem uma casa avaliada em R$ 30 milhões,  num condomínio de luxo, no bairro do Morumbi.

O príncipe renegado

Marcelo Odebrecht

Acionista de um império que faturava R$ 130 bilhões por ano, Marcelo viveu uma vida de conto de fadas. Por isso, sempre foi considerado “o príncipe” dos empreiteiros. Marcelo é um dos homens mais ricos do Brasil, o empreiteiro é dono de uma fortuna de R$ 13,1 bilhões. Preso, ficou numa cela de 12 metros quadrados, junto com outros presos da Lava Jato, dormia em beliche e seu vaso sanitário se resumia em um buraco no chão. Antes da prisão, ele só conhecia uma rica realidade. Filho de família abastada, poderoso executivo de uma empresa igualmente poderosa.

Mas a vida familiar de Marcelo está abalada. Seu pai, Emilio, por exemplo, para evitar qualquer possibilidade de encarar o filho que deixa a prisão, ou de passar o Natal com ele, refugiou-se numa Ilha de sua propriedade na Bahia.

Uma redoma de luxo sem janelas

Em liberdade, Marcelo voltará para sua vida de luxo, em sua mansão de 300 metros quadrados, mas com as memórias da prisão e sob a vigilância do Estado, que o rastreará pela tornozeleira eletrônica por mais dois anos.  Enquanto isso, ele poderá desfrutar da ampla área de lazer, com uma piscina majestosa, cercada por mata nativa, vizinha ao Parque Burle Marx. Sair de casa será mais difícil.

Para deixar o condomínio, ele precisará de autorização da Justiça e mesmo assim, só sob a supervisão da Polícia Federal e apenas para atividades de necessidade básica, como ir ao médico. Ele também não poderá receber visitas livremente. Empreiteiros e testemunhas ligadas à Lava Jato, por exemplo, estão expressamente proibidas de frequentar a mansão dos Odebrecht.

Documentos e família

Suas prioridades, num primeiro momento, serão resgatar a relação com a família e recolher documentos que comprovem as denúncias que fez à Justiça no acordo de delação premiada. “Marcelo sempre foi um homem da família. Quando dirigia a Odebrecht, saía do trabalho e ia para casa. Como ficou afastado das filhas por quase três anos, quer retomar a relação com elas. Quanto aos papeis que prometeu entregar ao juiz Sergio Moro, ele terá agora tempo livre para ir atrás da documentação”, disse seu advogado, Nabor Bulhões à uma reportagem da Isto É.

Apenas R$ 10 milhões por mês

A vida profissional de Marcelo permanecerá na geladeira até 2025. Ele está impedido de exercer qualquer função executiva na Odebrecht, como também de praticar qualquer atividade empresarial. Mas quando começar o período de regime aberto, em 2020, Marcelo pretende ser mais ativo na atuação na holding Kieppe, onde detém 5% das ações, e pensa em criar uma empresa que preste serviços para outras organizações, inclusive para a própria Odebrecht. Para isso, ele deseja construir uma aliança com os primos Francisco Peltier de Queiroz Filho e Emilio Odebrecht Peltier de Queiroz, que detêm outros 10% da Kieppe. Nessa holding, Marcelo tem direito a uma retirada mensal de R$ 10 milhões.

O problema será voltar para a Odebrecht. Na segunda-feira 11, uma semana antes de Marcelo deixar o presídio, seu pai, que ainda é o acionista principal, emitiu um documento determinando que nenhum membro da família poderá ocupar cargos de direção na empresa. Foi a maneira que ele encontrou para barrar qualquer pretensão de Marcelo em voltar algum dia para a empreiteira.

Nada de presidência

Na sexta-feira 15, Emílio anunciou que está deixando o cargo de presidente do conselho da Odebrecht, função que passou a exercer após a prisão do filho em 2015. O patriarca rompeu com o filho quando ele foi para a cadeia e lá resolveu fazer delação e pagar R$ 8,5 bilhões num acordo de leniência. Emílio discordou de tudo. Brigou a ponto de não querer recebê-lo assim que ele sair da cadeia.

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