Anitta: de mulher-maravilha à nova rainha do pop brasileiro

Foram quatro clipes de estrondoso sucesso e repercussão internacional nos últimos meses – 2017. Com texto primoroso a jornalista Flávia Tavares explica o sucesso dessa carioca, que queria apenas mostrar o ritmo do seu universo, os bailes, as lajes e ladeiras dos morros do Rio de Janeiro. No começo muita gente fez beicinho, tapou os ouvidos e nariz. Hoje é reconhecida além das fronteiras brasileiras. Se você não conhece, conheça, delicie-se e curta a explosão Anitta.

É o salto de vinil altíssimo da bota estampada de Brasil, acima do joelho, que promove o rebolado autêntico de Anitta logo na primeira cena. O minishort vermelho sobreposto ao de oncinha deixa de fora boa parte da abundância de molejo da cantora. Ela sacode sua brasilidade Morro do Vidigal acima. “Ah lá, toda animadinha”, delicia-se um marmanjo no off. Anitta sobe na garupa de um mototáxi, desembarca num boteco, monta na mesa de sinuca. Tunturuntuntum. Não precisa de repeat. A batida do funk já grudou. O clipe de “Vai, malandra”, nova música da cantora carioca, foi lançado no YouTube na segunda-feira, dia dia 18 de dezembro, às 11 horas. Em 24 horas, teve 14 milhões de visualizações – foi o clipe brasileiro mais visto no dia em que foi lançado e o que ultrapassou a marca de 1 milhão de curtidas mais rapidamente. No Spotify, plataforma de streaming de músicas, o funk alcançou, na quarta-feira, dia 20, a 18a posição da lista mundial de músicas mais tocadas. Foi a primeira vez que um artista brasileiro ficou no top 20. Estatísticas e recordes que compõem a curva do efeito Anitta em 2017: ascendente e delineada com cuidado para culminar precisamente em suas curvas emolduradas por fita isolante na laje da favela no clipe.

Anitta Extremus21
Anitta Extremus21 (Foto: reprodução)

Tunturuntuntum. Enquanto Anitta sacoleja seu corpo e suas tranças implantadas, garotas e rapazes lambuzados de suor e óleo flertam nos cenários do Vidigal. Tudo é muito sexual, permissivo. “Vai, malandra” é o quarto e último clipe de um projeto que Anitta denominou “CheckMate” e anunciou em agosto passado. Sua estratégia era clara: em parcerias com produtores e cantores internacionais de renome, ela lançaria um clipe por mês até dezembro. Seu objetivo, ambicioso: reconhecimento nos Estados Unidos e em países latinos. A primeira música foi “Will I see you”, em parceria com o produtor Poo Bear, que já trabalhou com nomões como Justin Bieber e Usher. Uma toadinha enjoada de violão embala uma Anitta doce, cantando em inglês, envolta em transparências sensuais, mas românticas. A segunda foi “Is that for me”, também em inglês, desta vez com o DJ sueco Alesso. O clipe foi gravado na Amazônia. Anitta está permanentemente fantasiada, figurativa. A melodia é customizada para pistas de dança e funciona. Em seguida, veio “Downtown”, com o colombiano J Balvin – essa em espanhol. O vídeo é repleto de clichês sobre a sexualidade latina, sob medida para o gosto americano. Anitta vendeu um pacote de sua versatilidade. Podia, no quarto e último clipe, apresentar-se como ela mesma, uma funkeira do Rio de Janeiro.

A estética de “Vai, malandra” é toda celebração das comunidades cariocas. Anitta é da periferia, de Honório Gurgel, na Zona Norte do Rio. Anitta é do funk, foi lançada pelo Furacão 2000 sete anos atrás. Anitta é do rebolado, sempre usou seu talento de dançarina para promover seu trabalho como cantora. Não surpreende que ela tenha escolhido honrar essas três características no xeque-mate de sua estratégia de marketing. A cantora defende com afinco, dentro de suas limitações, o feminismo, o poder das mulheres, a diversidade. E suas armas para isso variaram entre declarações nas redes sociais (6 milhões de seguidores só no Twitter) e em entrevistas; sua absoluta independência e autogerência da própria carreira; e sua própria arte. No Twitter, ela respondeu com elegância a um moleque que a chamou de prostituta: “Se prostituir no Brasil não é ilegal. Uma prostituta pode ser mais honesta, estudada e competente que um adolescente machista e preconceituoso”. Dicionário ilustrado para o que ficou conhecido como “lacre”. Em “Vai, malandra”, ela autoriza que seu parceiro no clipe, o Mc Zaac, use sua bunda como batuque na borda de uma piscina improvisada na caçamba de um caminhão. Quem caça sarna em derrière alheio a acusa de “objetificar” a mulher. Quem entende sua linguagem sabe que a mensagem é que mulher poderosa usa sua sexualidade da maneira que bem entende, seja com cinto de castidade ou com shortinho vermelho deixando a celulite de fora no meio da favela. Xeque-mate.

Mulher poderosa usa sua sexualidade como bem entende, seja com cinto de castidade ou com shortinho na favela.

Mas isso foi só um quadrimestre de Anitta. Seu ano todo foi glorioso. O recado de Anitta sobre o poder das mulheres está também em seu esforço incessante em levantar sua carreira. Mulher poderosa administra seu presente e futuro. Numa entrevista ao programa Fantástico no domingo que antecedeu o lançamento de “Vai, malandra”, Anitta, que tem 24 anos, contou como se atira sozinha nas empreitadas. Mas com um sorriso de satisfação, de quem desfruta o sucesso com mais orgulho por isso. “Ninguém me ajudou. Não houve investimento de ninguém. Houve eu fazendo assim: ‘ah é, ninguém quer me ajudar?’ Então, fui eu metendo a minha cara sozinha, real”, disse. Anitta lembrava do lançamento de “Paradinha”, single em espanhol, no México, no fim de maio. “Enfrentei lá a mesma situação que passei aqui no meu início: ‘Ninguém vai escutar, essa produção não tem nada a ver com o mercado latino, é muito brasileira.’” A desforra veio breve. Caminhando pelo aeroporto de Nova York, ela ouviu sua música no alto-falante. O clipe tem quase 223 milhões de visualizações no YouTube. “Paradinha” ultrapassou “Despacito” nas paradas das rádios mexicanas. E mesmo você que porventura não tenha nenhuma afinidade com esse universo pop sabe de que música se trata.

Três meses depois, Anitta botava no ar o clipe de “Sua cara”, música gravada com Major Lazer (de que faz parte o DJ e produtor musical Diplo) e com a cantora drag queen Pabllo Vittar. O vídeo foi todo rodado na porção marroquina do Deserto do Saara. Anitta e Pabllo dançam, triunfantes, na areia escaldante. Elas avisam que vão “rebolar bem na sua cara” e rebolam mesmo. Anitta escolheu exibir o clipe pela primeira vez na festa Combatchy, criada por ela para o público LGBTQ, que a idolatra. Em 24 horas, o clipe teve 17,8 milhões de visualizações no YouTube. Foi a maior estreia de um clipe no ano até ali e a sexta maior audiência da história. Por isso, ninguém entendeu quando, em setembro, os curadores do Rock in Rio decidiram deixar a rainha do pop de fora dos palcos. Especialmente quando Lady Gaga anunciou que não viria ao Brasil, porque precisava tratar sua fibromialgia. Críticos e fãs imploraram por Anitta. Roberta Medina, vice-presidente executiva do Rock in Rio, deu uma resposta ambígua: “Ninguém sobe nesse palco sem estar preparado”. Depois, complementou que não daria para chamar alguém que já não estivesse no festival, “nem que fosse a Madonna”.

Anitta não se ressente. Fala de, um dia, montar um festival próprio. Mas já topou participar do Rock in Rio em Lisboa, no ano que vem, e no Rio, em 2019. Desde que não tenha de maquiar seu estilo, disfarçar seu funk, como lhe foi sugerido. No ano mais produtivo de sua trajetória até aqui (até casar ela casou), Anitta calculou uma forma de explorar outros ritmos e mercados de maneira a voltar, vitoriosa, ao funk. Alguém terá coragem de contrariá-la? Tunturuntuntum.

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