Senhora Pestalozzi

Atenção! Logo na saída, o conteúdo pode causar qualquer tipo de aflição em pessoas incomodadas com o que é “gente de verdade”. Em tempos de individualismo acentuado, Maria Luiza Zanon Dallorto se mostra capaz de viver sentimentos como a solidariedade, a fé, a braveza e a indignação. Na defesa da suas ideias e (quase) sem papas na língua, defende e critica com a mesma desenvoltura.

Mãe de três: Fábio, Silvia e Olívia, ela é uma das pioneiras de Teixeira de Freitas, lugar em que chegou na companhia do marido Dilermando, em 1974. O casal se fixou no extremo sul baiano logo depois da lua de mel, desde o tempo em que “não tinha nada”.

É inegável que Maria Luiza ajudou a construir a cidade, que hoje é a principal da região. Há quase trinta anos, ela deu início ao seu maior legado, a Associação Pestalozzi, que começou num espaço destinado, inicialmente, à uma lavanderia pública e hoje é referência.

Capixaba de Linhares, nascida no distrito de Rio Bananal, é a terceira dos nove filhos do casal Luiza Ceolin Zanon e Agenor Zanon. A descendência italiana está no nome, nos traços, nos gestos e na entonação de voz. Ela nos recebeu em sua sala na Pestalozzi. A organização e a limpeza do lugar chamam a atenção. O bom-papo rendeu conversa de mais de uma hora – foi difícil cortar trechos. A leitura vale a pena!

Eram 147 casas e 147 fogueiras

Extremus21: Vamos começar por sua chegada aqui em Teixeira de Freitas. Você chegou quando? Motivada pelo o quê?

ML: Eu cheguei motivada pelo marido (risos). Éramos noivos quando ele resolveu vir para o Sul da Bahia trabalhar com madeira. Depois de um longo tempo de namoro, sete anos e meio, nos casamos e nos mudamos pra cá. Eu ainda fazia minha faculdade, de filosofia, não queria deixar tudo, mas ele pressionou e eu caí nos braços do amor. Passamos lua-de-mel em Salvador e viemos direto pra cá. Era 1974.

Extremus21: O Brasil ainda respirava o militarismo, o movimento hippie, e aqui, como era?

ML: Nessa época, o Exército Brasileiro estava construindo a BR [Rodovia BR 101]. A gente tinha a sensação que era um lugar distante, pela dificuldade de chegar aqui.

Extremus21: Então você se considera uma desbravadora de Teixeira?

ML: Ah com certeza, eu sou pioneira. Todo mundo me perguntava, “como era Teixeira de Freitas?”, eu falava “não sei como era, não tinha nada, não dá para sinalizar uma coisa assim”. O que eu me lembro bem é das festas juninas, eram muitas, o povo gostava do movimento. Enfeitavam as casas, faziam roupas, biscoitos. E a gente recebia muitos convites para as festas. Teve um dia em que saímos de casa, na região onde hoje é a Pousada Lord, fomos até onde agora é o Centro, e eu contei 147 fogueiras, isso significa que eram 147 casas da BR até o Centro.

Extremus21: Ter visto Teixeira de Freitas nascer, te traz o sentimento de pertencimento pela cidade, embora tenha nascido no ES?

ML: Sim. Ainda mais que foi aqui que nasceram meus filhos, e isso foi o ápice da minha vida conjugal. Sem estrutura, precariamente a gente conseguiu educá-los, tanto na vida religiosa, como escolar e na vida social. A gente inventava evento social, criava piquenique, jogos com bola. Além disso, eu sou grata a Teixeira de Freitas pela oportunidade que sempre tive em fazer meu trabalho social.

Brava pra não me machucar

Extremus21: Você fala que foi difícil educar os filhos, mas formou os três. Como foi?

ML: Vou começar pelo mais velho. Foi muito difícil desapegar de Fábio, deixá-lo criar asas. Fábio tinha que estudar, tinha que sair de Teixeira. Foi pra Vitória-ES. Eu fiquei naquela angústia, porque não podia deixar meu casamento. Então eu ia e voltava sempre. Eu agradeço muito a Deus, não sei como nunca aconteceu nada, nenhum acidente! E ai Fábio fez o vestibular, passou em Engenharia Civil fez até o terceiro ano, mas não gostou. Então ele foi fazer o que queria, fez Administração, depois foi para a [Fundação] Getúlio Vargas, fez mestrado.

Extremus21: E as meninas?

ML: Silvia e Olívia já estavam saindo, porque existe uma diferença muito grande de idade entre Fábio e as duas meninas. E eu continuei na mesma trajetória, vai e volta (risos). Silvia fez vestibular para Medicina, é médica cardiologista, ela trabalha no Beneficência Portuguesa, e Hospital São Camilo em SP, muito bem conceituada, uma menina de muito valor. Ela sempre gostou muito de fazenda, acompanhava o pai, achávamos que seria veterinária. Mas a Olívia, que tinha pretensão de ser médica foi para o Direito, queria a magistratura, conseguiu. Passou e está esperando ser chamada. Então assim, não gosto de dizer que eu sou uma mulher de sorte, porque eu não acredito na sorte, eu acredito no esforço. Claro que às vezes as coisas podem estar no lugar certo, na hora certa. Isso tudo, para mim, são desígnios de Deus.

Extremus21: Você é conhecida por ser uma pessoa de fé…

ML: Minha ligação com a religião veio de berço, criação familiar. Minha mãe morava no morro, bem embaixo, e em cima era a igreja. Ela tomava conta da igreja e levava os nove filhos, soltava dentro da igreja e ficávamos ali engatinhando. Minha mãe sempre amou estar ali, servindo à igreja, nessa forma mais rude mesmo, que é a parte da limpeza. Ela sempre fez isso com muito prazer. Sempre fomos Católicos Apostólicos Romanos. Uma pessoa que não tem fé é muito oca. Minha força espiritual me garante. Deus é quem toma conta de mim.

Extremus21: Você também tem fama de brava…

ML: É, tenho (risos). Eu tenho uma fama muito grande de ser brava porque nós somos de origem italiana e o italiano é bravo. O tom de voz é alto e parece que estamos brigando. Vou te contar uma coisa: na casa da minha mãe, até hoje tem uma mesa com 12 cadeiras. No sábado e domingo, almoço é com a família inteira. É muito engraçado, porque todo mundo quer falar, todo mundo fala alto, e acumula tudo para este momento, é um verdadeiro circo. Mas tem outra coisa, eu sou uma pessoa muito sensível, eu me escondo atrás dessa coisa de ser brava para não me machucar.

“Que sujeito doido, pelo amor de Deus!”

Extremus21: Em que momento a Pestalozzi entrou em sua vida?

ML: Eu sofri um aborto e como consequência fiz uma lesão renal, fiquei anos tomando corticoide, em repouso, os médicos tentando recuperar meu rim. Eu fui ficando deprimida, eu era muito ativa e, estava numa sensação que minha vida tinha acabado. Foi quando uma cunhada, Renusa, viu uma Pestalozzi no Rio de Janeiro, gostou e implantou em Linhares. Foi ela quem falou: “Luiza, vamos implantar a Pestalozzi em Teixeira”. Tanto, que ela aparece como diretora técnica na fundação, porque não quis aparecer como presidente, mas foi ela quem fez toda a papelada. Aí começamos. Era a primeira gestão de Temóteo [Brito]. Fui até ele, conversei, e ele disse: “se você quiser já lhe dou o espaço”. Aqui [na Pestalozzi] era uma lavanderia.

 

Extremus21: Você tinha uma relação de amizade com ele?

ML: Éramos bastante amigos. Eu tenho uma gratidão muito grande por Temóteo porque quando chegamos, ele foi nos receber, ele ia receber todo mundo que chegava. Quando ele foi nos receber, vendeu uma imagem tão bonita, fazia isso com todo mundo, num trabalho de beija-flor. Eu olhava para a cara dele, e falava assim: “que sujeito doido, pelo amor de Deus” e aí ele falava: “essa cidade vai ser a mais importante do Extremo Sul da Bahia”. Ele sempre passava aquela confiança na gente, que Teixeira cresceria muito. Quando eu comentava que eu não estava me adaptando, porque tinha que dormir muito cedo, porque não tinha energia, e o motor [do gerador, eles] desligavam às nove horas, e tinha que tomar banho frio ou então esquentar água, ele era quem fazia a gente acreditar de novo. Sempre seguro. Visitava as casas quase todos os dias e levava essa mensagem, pra não desanimar. E ele cedeu o espaço que era a lavanderia comunitária, que não tinha dado certo, com muitas salas. E nós começamos. Fomos crescendo e crescendo e, hoje a Pestalozzi de Teixeira de Freitas é modelo. É uma pena que a gente não tem todos os profissionais que precisamos ter.

Extremus21: Quantos são os assistidos hoje?

ML: Estamos com 241 matriculados, outros que ainda não se matricularam. Nós já estamos com dificuldade, pois aumenta o número de alunos e não aumentamos os funcionários. Para conseguirmos atender, fazemos dias alternados, que acho uma judiação.

Extremus21: Por que faltam profissionais?

ML: Olha bem, não veem porque o que a gente consegue de doação, que não é pouco, também não é o suficiente para aumentar a equipe. Quando se fala de inclusão, o aluno vai para escola e volta para casa, mas aqui não. O aluno vem para escola, é dado a ele todo suporte médico. A gente leva pra dentista, leva para fazer tratamento de osso em Vitória, porque estão envergados, encurvados. Aqui damos o suporte até na questão financeira da família. Aqui a gente dá o shampoo, a fralda, o perfume. Cuidamos praticamente de tudo. A demanda para manter a instituição é grande. O que tem que acontecer, é os órgãos públicos começarem a ver aqui como verdadeira inclusão.
Viver enquanto houver tempo de vida

Extremus21: Duas falas chamam a atenção: quando você fala das crianças e da condição financeira. Todos que estão aqui são crianças, todos são carentes?

ML: Não. Eu falo sempre que são crianças, pois para a gente eles serão eternas crianças, mas temos assistido aqui com 60 anos. Vamos colocar que de 90% a 95% dos assistidos são carentes. São pouquíssimas as famílias que teriam condição de pagar uma escola particular.

Extremus21: Além da carência financeira, os assistidos chegam aqui com outro tipo de carência?

ML: Todas que você imaginar. Alguns são dependentes químicos, outros são usados como aviõezinhos pelo tráfico de drogas. Temos mocinhas que já tem uma vida sexual ativa, violadas. Aqui a gente sofre com aquela raiva da pessoa lá fora está abusando da condição dos nossos assistidos.

Extremus21: Como a população pode ajudar a Pestalozzi a ajudar essas pessoas?

ML: Existe um milhão de formas, basta a pessoa olhar pra cá. Então, com esse olhar, que venham fazer uma visita, abraçar, beijar. Mesmo com todas as dificuldades, eles estão sempre sorrindo. É o que eu falo aos políticos, a gente assumiu esse trabalho, mas não foi para carregar sozinhos. Fizemos a proposta de ajudar e sermos ajudados. A outra forma é a divulgação nos meios de comunicação. Temos também a parte material, temos algumas contribuições com carnê. O carnê não tem valor, é aquilo que a pessoa puder. Todo tipo de doação é bem-vinda. Precisamos muito de uma alimentação complementar, o leite, muito leite, que é base da alimentação deles. Estamos sempre disponíveis a receber doações.

Extremus21: Recentemente você lutou com o câncer, você quer falar sobre isso?

ML: Lutei. Luto. É uma luta constante. Porque como o meu médico, doutor Dráuzio Varella falou, o câncer não tem cura, tem controle.

Extremus21: O câncer te fortaleceu, ou te fragilizou?

ML: De imediato me fragilizou, porque ninguém gosta de saber que tem uma doença. Costumo dizer que quem tem um câncer, tem um fantasma. Você se vigia 24 horas. Mas eu não quero viver nessa neurose. Eu quero viver enquanto houver tempo de vida. Todo dia a gente mata um leão. Você só consegue superar o câncer se viver dessa forma.

Extremus21: E vivendo um dia de cada vez, em que dia você se mudará para seu apartamento novo?

ML: (risos) Olha, esse apartamento meu já virou até uma piada. Quando eu assanhei em sair da casa, eu não sabia ainda do câncer, então isso já atrasou. E eu tenho duas cachorras, vieram da rua. Adoro cuidar de animal de rua. Nós temos uns oito nos loteamentos, na fazenda mais uns 12. A família inteira envolvida. Ai essas duas chegaram pra mim assim. Fábio [filho] viu a cachorra atropelada, a Xuxa, e começou a cuidar, e não desapegou. Ela estava prenha (risos), teve seis filhotes. E a Lola, que é a minha, ele ia passando e ele pegou ela toda suja de sangue, também foi atropelada, ele pediu para eu cuidar. Lola é muito grande. E para o apartamento eu não posso levar as duas. O apartamento está preparado, fiz a casinha dela. Mas para não separar as duas, estou esperando o Fábio se mudar para perto, assim a gente não separa as duas cachorras, pra elas não sofrerem.

Extremus21: Você tem vontade de se dedicar à vida política?

ML: Eu sempre gostei muito de fazer política, acho que é por causa da minha atração de lidar com as pessoas. Mas de ser eu a pessoa política, isso não.

Extremus21: E com toda essa história, depois dos filhos criados, da dedicação à Pestalozzi, o que mais você pensa sobre Teixeira?

ML: É minha casa. Sou grata a essa cidade por me proporcionar meu serviço social. Não saio daqui.

Comentários

Ir ao topo da página