Uma paulistana hiperativa em Teixeira de Freitas

Ilse Adisaka: psicóloga, sorriso constante, frases afiadas e bem direcionadas. Não é adepta de eufemismos, tampouco “de muros”. Ela tem posicionamento. Cheia de responsabilidade, em todos os sentidos. Aliás, pluralidade é uma palavra que a define bem, entre uma coisa e outra, tomou para si a responsabilidade de escrever sobre essa “paulistana hiperativa em Teixeira de Freitas”. Parafraseando com o projeto desenvolvido por ela, abaixo você vai ler sobre “Ilse falando [um pouco] de si”. Agora pare, sente e aprecie. O texto e a história valem sua pausa.

Sou paulistana, nascida e criada na capital mais populosa da América Latina. E quando eu digo a mais populosa, preciso mencionar que é disparadamente a mais populosa mesmo: tem quase o dobro de habitantes da segunda mais populosa deste continente, que é Lima, Peru.

Uma paulistana hiperativa em Teixeira de Freitas
1969 eu e meus irmãos antes de eu completar um ano, Museu do Ipiranga SP.

Disputar espaço com 12 milhões de pessoas é, sobretudo, uma faculdade. Não se disputa apenas o assento do metrô, a vaga no estacionamento, a matrícula da filha na escola, a promoção da batata no supermercado…em São Paulo disputa-se tudo!

Uma paulistana hiperativa em Teixeira de Freitas
1974, aos 06 anos ,Praça Monte Azul - SP, fusca laranja da mamãe em frente de casa

Viver na capital paulista remete aos tempos da descoberta do fogo, onde, para sobreviver, há de ser muito selvagem, porque só os melhores em seus fazeres e valentes em seu posicionamento, permanecem. Não há espaço para os fracos. Não há espaço para meias palavras, indecisões, pouca atitude, longas depressões, extensos lutos. Em São Paulo ou se vive, ou morre-se.

Uma paulistana hiperativa em Teixeira de Freitas
1982, aos 14 anos na colação do ensino fundamental, na época 8ª série do ginásio.

Após 37 anos de nirvanas paulistanos, num desses belos 19 de maio que ocorrem todo ano, desembarquei com a família em solo baiano, mais precisamente, solo soteropolitano. Na bolsa, mamadeiras e fraldas. Na mala, todos os sonhos.

Uma paulistana hiperativa em Teixeira de Freitas
1996, com mamãe e papai numa feira de surfwear na Bienal do Ibirapuera SP

Salvador foi minha preparação para esquecer todas as neuras e chatices paulistanas, para modificar meu olhar e ouvidos entre vida pública e privada, para me fazer compreender que existem apenas duas temperaturas nas quatro estações (calor e fornalha), para perceber que aquilo que (não) aprendi nas aulas de história do Brasil era mentira e para aprender que sabor, cor, valor, podem ser muito além de tudo que eu tinha conhecido com tanto esmero.

Uma paulistana hiperativa em Teixeira de Freitas
2001, no meu escritório na Vila Madalena SP

Após dez anos e tantos outros nirvanas, calhou de mudar para Texas City, cientificamente conhecida por Teixeira de Freitas. Como na psicanálise, não existe coincidência, sei que, de alguma forma, viemos ao encontro desta cidade que eu havia conhecido de passagem, treze anos atrás, no meu primeiro fim de ano com Chico, meu amado marido.

Uma paulistana hiperativa em Teixeira de Freitas
2008, com Chico, após a Lavagem do Bonfim, no Pelourinho, Salvador-BA

Uma cidadezinha diferente de todas que já vi. Tão pequena, que em 15 minutos com trânsito, posso atravessá-la de carro nos sentidos Norte-Sul ou Leste-Oeste. Tão pequena que não há estranhos, não existe anonimato. Constatei isso no dia que deixei pela primeira vez meu carro num lava-jato e na hora de pagar eu não tinha o valor em espécie e lá não aceitava cartão de débito, ao dizer “eu pago depois”, o dono logo me disse “não se preocupe, eu lhe conheço, eu sei quem você é, eu te vejo sempre”. E ouvi isso outras vezes depois.

Uma paulistana hiperativa em Teixeira de Freitas
2014, na Barra- Salvador/BA

Por ser tudo perto, eu posso trabalhar na Pestalozzi e no meu consultório numa jornada diária de quase 12 horas, levar e buscar a filha na escola e nas atividades, fazer mercado, cozinhar todos os dias, cuidar “literalmente” da casa, fazer duas pós EAD, ver muitos filmes na Netflix, seguir séries, jantar fora, atualizar as páginas de FB e Insta e viajar ocasionalmente. Como estou em uma semana de férias da Pestalozzi, houve um tempo sobrando e resolvi escrever esta coluna.

Uma paulistana hiperativa em Teixeira de Freitas
2016, no meu consultório em Teixeira de Freitas/BA

Descobri aqui ser o lugar ideal para o exercício saudável da minha hiperatividade e, como sou dessas, criei já uma relação de amor com a querida e desordenada Teixeira de Freitas. Porque, afinal de contas, só com amor tudo torna-se possível.

Uma paulistana hiperativa em Teixeira de Freitas
2017, com a família completa, em casa em Teixeira de Freitas/BA

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