Richarlyson, a homofobia e a tolerância com a violência

Richarlyson, 34 anos, talentoso jogador de futebol. Nunca se declarou gay, mas seu jeito, considerado afeminado por alguns, foi o suficiente para que se tornasse alvo de preconceito e um símbolo de resistência à homofobia. Por outro lado, foi um limitador da sua carreira no conturbado mundo homofóbico do futebol.

De volta ao Brasil, depois de uma temporada no futebol da Índia, as provocações chegaram junto. Ele foi contratado pelo Guarani, recebido com honraria pela diretoria do clube, mas não por toda a torcida. Alguns torcedores chegaram a arremessar bombas na direção do estádio e não eram em comemoração, pelo contrário. Era um manifesto nefasto.

As redes sociais se tornaram um terreno fértil para os raivosos e preconceituosos. Teve até um vereador ponte-pretano escrevendo bobagens na time-line e achando que seria engraçado dizer que Richarlyson era “o reforço certo no clube certo”. Logo depois ele tentou remendar, dizer que era um elogio. Lógico que ninguém acreditou. Pior pra ele, ficou feio.

Mas essa foi só mais uma vez em que o jogador passou por situação do tipo. Em 2007, José Cyrillo Júnior, então dirigente do Palmeiras, insinuou que o jogador era gay em um programa de TV. Richarlyson o processou, mas o juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, da 9ª Vara Criminal de São Paulo, sentenciou que “futebol é jogo viril, varonil, não homossexual”.

O interesse do Palmeiras pelo jogador ficou abafado pelas demonstrações homofóbicas e a contratação nunca aconteceu. No São Paulo, o jogador teve uma bela passagem, foi campeão mundial, tri-campeão brasileiro e nunca ouviu seu nome gritado das arquibancadas, como acontecia com seus colegas.

Diante do quadro, ele seguiu. O futebol de Richarlyston o mantém até aqui. Melhor para o Guarani, que ganhou um reforço da melhor qualidade técnica e um homem de conduta reta e história ilibada.

Em meio a tantas discussões, a Revista Veja, na coluna de Luis Felipe Castro levanta a questão da tolerância nacional com o goleiro Bruno, acusado de homicídio.

“Um jogador talentoso, campeão nacional, da Libertadores, do Mundial de Clubes e com passagem pela seleção brasileira é apresentado sob bombas de protesto. O outro, acusado de um crime bárbaro e ainda com problemas a resolver com a Justiça, é recebido com selfies e abraços de mulheres e crianças”.

Mas, felizmente, houve uma parcela bem representativa de torcedores que festejaram muito o retorno do jogador ao Brasil, ao Guarani. E, somente o fato de se discutir o tema e perceber que se trata de um ato de preconceito, que não é só “uma brincadeira”, já é um avanço. Admitir que a homofobia existe no futebol, e é ruim ao esporte e para a sociedade, é o primeiro passo para enfraquece-la.

Comentários

Ir ao topo da página